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Deputados acionam EUA para investigar rota do dinheiro entre Vorcaro e família Bolsonaro


A blindagem internacional que a família Bolsonaro construiu com tanto empenho começa a ruir exatamente em Washington, o endereço que a extrema direita brasileira tratou como santuário político nos últimos anos. Deputados de quatro partidos de esquerda formalizaram um pedido para que os departamentos de justiça e de inteligência dos Estados Unidos investiguem a rota financeira transnacional do banqueiro Daniel Vorcaro e de integrantes do clã Bolsonaro.

Segundo reportagem do Portal ND Mais , que teve acesso ao documento, os parlamentares querem que as autoridades americanas apurem se contas bancárias, empresas, fundos de investimento e escritórios de advocacia sediados nos Estados Unidos foram usados para movimentar, ocultar ou dissimular recursos de origem potencialmente ilícita.

A iniciativa leva as assinaturas dos deputados federais Pedro Uczai (PT-SC), Jandira Feghali (PCdoB-RJ), André Janones (Rede-MG) e Pedro Campos (PSB-PE), que cumprem agenda em território americano. O foco da solicitação recai sobre o Banco Master, seu controlador Daniel Vorcaro, estruturas ligadas à Reag Investimentos e as conexões financeiras com o senador e pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, e seu irmão, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

O documento pede cooperação internacional para rastrear pagamentos, identificar beneficiários finais e preservar registros bancários e societários nos Estados Unidos. Os parlamentares afirmam não atribuir responsabilidade criminal definitiva a ninguém, mas sustentam que há indícios mais do que suficientes para justificar uma apuração internacional de fôlego.

A suspeita principal é que contratos de consultoria, advocacia, produção audiovisual e comunicação estratégica tenham servido para mascarar a origem ou o destino de dinheiro ilícito. O requerimento menciona especificamente os nomes de Flávio e Eduardo Bolsonaro, sugerindo que projetos desenvolvidos em território norte-americano podem ter funcionado como mecanismos de transferência ou ocultação de valores.

O movimento acontece num momento de agonia política para Flávio Bolsonaro, encurralado pela segunda proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro, entregue no início de junho à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República. O banqueiro incluiu o senador e também o filme Dark Horse, produção audiovisual que teria sido usada na engrenagem financeira sob investigação, no pacote de revelações que agora está sob análise dos investigadores.

A ofensiva dos deputados expõe uma contradição profunda no discurso bolsonarista, que sempre se vendeu como paladino do combate à corrupção enquanto seus integrantes se enredam em esquemas que lembram os velhos vícios da política brasileira. É o tipo de situação em que o personagem que posava de antissistema aparece na cena do crime como protagonista das engrenagens que dizia combater.

A inclusão de Eduardo Bolsonaro no documento tem peso específico, porque o deputado vive nos Estados Unidos e sempre operou como ponte política e ideológica da família em Washington. Os parlamentares levantam a hipótese de que recursos de origem criminosa possam ter financiado campanhas de pressão internacional e até mesmo tentativas de interferência no processo eleitoral brasileiro a partir de solo americano.

A investigação, caso avance, pode expor o lado financeiro de uma operação política que sempre se apresentou como puramente ideológica. Para um clã que fez da aliança com a direita americana um dos pilares de sua estratégia de poder, ver a blindagem ruir justamente nos Estados Unidos é um golpe político de primeira grandeza.

O cerco se fecha em várias frentes simultâneas: delação no Brasil, pedido de cooperação internacional nos Estados Unidos, e um pré-candidato que mal consegue reagir quando questionado por eleitoras sobre sua relação com um banqueiro investigado. A temporada eleitoral de 2026 mal começou, e o projeto de poder da família Bolsonaro já sangra exatamente na veia que deveria mantê-lo de pé.