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Conflito na Ucrânia impulsiona inclusão de crianças com deficiência apesar da falta de terapeutas

Três mulheres conversam na entrada do “Центр Підтримки Родини” em uma cidade ucraniana. (Foto: tagesschau.de) O conflito prolongado no leste europeu trouxe uma mudança inesperada na sociedade ucraniana. A percepção sobre crianças com deficiência passou por transformação significativa, mesmo com a rede de atendimento especializado enfrentando escassez crônica de profissionais. Em Irpin, cidade próxima a […]

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Três mulheres conversam na entrada do "Центр Підтримки Родини" em uma cidade ucraniana. (Foto: tagesschau.de)

O conflito prolongado no leste europeu trouxe uma mudança inesperada na sociedade ucraniana. A percepção sobre crianças com deficiência passou por transformação significativa, mesmo com a rede de atendimento especializado enfrentando escassez crônica de profissionais.

Em Irpin, cidade próxima a Kiev que foi palco de intensos combates, uma unidade de acolhimento diário inaugurada há um ano tornou-se símbolo dessa realidade. A reportagem do portal alemão tagesschau.de revelou os desafios e avanços enfrentados pelas famílias.

Natascha Smiljanska leva seu filho Dmytro, de 17 anos, ao centro semanalmente. O adolescente, com deficiência visual severa, passou a necessitar de acompanhamento psicológico após o agravamento da guerra. Dmytro guarda memórias do período anterior ao conflito, mas viu sua realidade mudar drasticamente.

A família sofreu perdas significativas. O tio de Dmytro morreu em 2024, a avó faleceu de infarto ao saber que o filho fora ferido no front, e a casa da família foi destruída por incêndio em 2022. A mãe abandonou a carreira para dedicar-se integralmente aos cuidados do filho.

A unidade de Irpin conta com uma psicóloga, quatro educadores, dois assistentes sociais e uma enfermeira. Eles atendem cinquenta crianças, número insuficiente diante da demanda crescente por reabilitação física e mental. Os recursos municipais e equipamentos fornecidos pela Alemanha ajudam a manter o serviço.

Nataliya Schpilevaya, mãe de Anastassija, que nasceu com atrofia muscular, descreve a escassez de profissionais. Muitos especialistas migraram para o exterior ou para clínicas privadas, onde a remuneração é mais vantajosa. A mobilização militar também contribui para o esvaziamento dos quadros terapêuticos.

O gargalo afeta crianças com condições preexistentes e novas vítimas de ferimentos graves causados pela guerra. Apesar das dificuldades estruturais, as famílias relatam avanço na tolerância social em relação às crianças com necessidades especiais.

Nataliya Grytsajlo, profissional da revista infantil Piznayko, testemunha a mudança de comportamento. Durante visitas escolares à redação em Kiev, crianças com demandas específicas são integradas às turmas com naturalidade. Os colegas reagem com tranquilidade quando um aluno grita ou sofre uma crise.

A revista mantém uma seção fixa dedicada à inclusão. Ilustrações em versos e imagens mostram crianças com autismo, síndrome de Down ou membros amputados. A mensagem transmitida é de que todas possuem valor equivalente, independentemente da origem da deficiência.

Uma lei de inclusão aprovada antes da intensificação do conflito impulsionou a matrícula de crianças com deficiência em classes regulares. Svetlana Mogiljanets, diretora da unidade de Irpin, é mãe de uma jovem de 26 anos com desenvolvimento intelectual equivalente ao de uma criança.

Mogiljanets carrega a memória das humilhações sofridas pela filha ao longo da vida. Ela enxerga na aceleração da inclusão uma esperança para as próximas gerações. Reconhece as limitações orçamentárias do Estado em período de guerra, mas defende a responsabilidade coletiva.

A transformação cultural, nascida da tragédia, representa uma conquista que famílias e profissionais pretendem preservar. O contingente de crianças com deficiência tende a crescer à medida que o conflito se prolonga.


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