A onda de calor que atinge a Índia e o Paquistão desde meados de abril já causou ao menos 37 mortes no território indiano e 10 no paquistanês. As temperaturas máximas diárias superaram 46°C em várias localidades, ficando entre 5°C e 8°C acima das médias históricas para esta época do ano.
A demanda por eletricidade bateu recordes enquanto milhões de pessoas ligavam aparelhos de ar-condicionado. Simultaneamente, a seca se agravou sobre mais de um milhão de quilômetros quadrados na região, intensificando os impactos do calor extremo.
Especialistas alertam que o número real de vítimas fatais é provavelmente muito maior. As mortes relacionadas ao calor são sistematicamente subnotificadas na Índia, segundo o portal phys.org. A persistência de sistemas de alta pressão atmosférica suprimiu a formação de nuvens e chuvas, aprisionando o ar quente próximo à superfície por vários dias consecutivos.
Sem precipitação, os solos secaram e mais calor foi transferido para o ar, em vez de ser usado na evaporação da umidade do solo. As áreas urbanas sofreram ainda mais, pois o concreto e o asfalto absorvem calor durante o dia e o liberam lentamente à noite, mantendo as cidades mais quentes mesmo após o pôr do sol.
Essa ausência de alívio noturno é particularmente perigosa para quem não tem acesso a refrigeração. A mudança climática causada pela queima de combustíveis fósseis tornou a onda de calor cerca de três vezes mais provável e aproximadamente 1°C mais quente, conforme estimativas da World Weather Attribution.
Com o atual nível de aquecimento global de 1,4°C, eventos assim devem ocorrer no subcontinente aproximadamente uma vez a cada cinco anos. Se o planeta alcançar 2,6°C de aquecimento até 2100, trajetória para a qual caminhamos atualmente, ondas de calor como essa atingiriam a região a cada dois ou três anos e seriam 2,2°C mais intensas.
A combinação de calor extremo com umidade elevada é o que torna essa situação letal. O corpo humano usa o suor como principal mecanismo de resfriamento, mas quando o ar já está carregado de umidade, a evaporação fica mais lenta e a temperatura corporal pode subir até níveis fatais.
Cientistas utilizam a temperatura de bulbo úmido para medir o limite combinado de calor e umidade. Até recentemente, acreditava-se que o ser humano não sobreviveria a 35°C de bulbo úmido. Novas pesquisas mostram, porém, que a letalidade pode ocorrer em combinações variadas: para idosos ao ar livre, 35°C com 90% de umidade é tão mortal quanto 45°C com 30% de umidade.
Mesmo jovens saudáveis de 18 a 35 anos correm risco de morte quando a umidade atinge 40% e os termômetros marcam 45°C. Algumas áreas do subcontinente já podem ter atingido esses limites durante este período crítico, embora os boletins meteorológicos divulguem apenas a temperatura do ar.
A ameaça não é distribuída igualmente. Pessoas mais ricas podem ligar o ar-condicionado e evitar sair às ruas, enquanto trabalhadores da construção civil, agricultores, entregadores e moradores de assentamentos precários não têm como escapar do calor. Comunidades rurais também enfrentam riscos severos, pois o trabalho é predominantemente ao ar livre e o acesso a serviços de saúde é limitado.
A chegada das monções, prevista para o início de junho no sul da Índia e julho no Paquistão, trará alívio com aumento de nuvens e chuvas, mas só se estende até setembro. A crise atual expõe a profunda injustiça climática, pois enquanto os países mais ricos seguem ampliando suas emissões, nações do Sul Global pagam com vidas as consequências de um aquecimento que não provocaram.
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