A Polícia Federal deflagrou na última sexta-feira (29) a Operação Zona Cinzenta para investigar a alocação de R$ 400 milhões da Amapá Previdência (Amprev) em títulos do Banco Master, em meio a uma teia de sete inquéritos que já cercam a instituição. Com as principais frentes concentradas no Supremo Tribunal Federal (STF), o cerco se amplia e ameaça respingar diretamente sobre senadores e deputados, o que coloca o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sob risco de ter sua blindagem política testada às vésperas da eleição de 2026.
A nova frente foi revelada pelo jornal Valor Econômico, que detalhou os investimentos do fundo previdenciário do Amapá em papéis do banco controlado por Daniel Vorcaro. A operação deflagrada na sexta-feira é o sétimo inquérito da PF desde o início das apurações sobre supostas fraudes no Master, e os investigadores miram agora a origem e o lastro dos ativos que renderam à Amprev posições milionárias.
Os casos mais sensíveis tramitam no STF sob a relatoria do ministro Dias Toffoli, abarcando a suspeita de emissão de títulos sem lastro que teriam sido repassados ao Banco de Brasília (BRB) e um inquérito sobre cessão de direitos creditórios milionários por empresas de capital social irrisório a fundos ligados ao Master. As duas investigações, que integram a chamada Operação Compliance Zero, nasceram em primeira instância em São Paulo e no Distrito Federal, mas subiram ao Supremo por envolverem autoridades com prerrogativa de foro.
Segundo a reportagem, Toffoli pode determinar o desmembramento dos autos, devolvendo a maior parte para as instâncias de origem e mantendo no STF apenas as linhas que tratam de deputados federais e senadores. Essa definição é crucial para o futuro do senador Flávio Bolsonaro, uma vez que, ao permanecer no STF, qualquer acusação contra ele tramitará em tribunal de cúpula, onde prazos e ritos costumam ser mais lentos e politicamente influenciáveis.
Além disso, Toffoli ainda analisará o inquérito que apura a possível contratação de influenciadores digitais para atacar autoridades e instituições responsáveis pela fiscalização do Master. A Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção (Dicor) da PF em Brasília conduz esse braço, e a Procuradoria-Geral da República foi instada a se manifestar antes de o ministro decidir se o caso permanece no STF ou migra para a justiça comum da capital federal.
No Rio de Janeiro, a Operação Barco de Papel já apura investimentos de quase R$ 1 bilhão feitos pela Rioprevidência, a fundação de previdência dos servidores estaduais fluminenses, também em ativos do Banco Master. O volume bilionário evidencia a capilaridade nacional da suposta rede de captação de recursos públicos que agora está sob escrutínio da Polícia Federal e do Ministério Público.
Mais recentemente, a PF abriu outros dois inquéritos: um na Dicor para investigar suposta gestão fraudulenta no BRB, e outro na Superintendência Regional de São Paulo para apurar o Grupo Fictor por emissão de títulos sem lastro, apropriação financeira indébita e operação de instituição financeira sem autorização. O cerco ao ecossistema do Master se adensa, e promotores do MPF já possuem apurações em ao menos seis unidades da federação.
A conexão direta com o clã Bolsonaro ainda não aparece nominalmente nos autos públicos, mas a concentração das investigações no STF indica que figuras de alto calibre com foro estão na mira. Flávio Bolsonaro, que em 2026 buscará a reeleição ao Senado e desponta como principal operador político da família após a inelegibilidade de Jair Bolsonaro, já teve sua relação com o banco Master questionada em relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) por transações suspeitas no passado recente.
Para o projeto de poder do Partido Liberal (PL) nas eleições de 2026, a multiplicação de inquéritos contra o Master representa uma bomba-relógio que pode atingir a imagem de Flávio Bolsonaro e, por extensão, do bolsonarismo. A estratégia eleitoral do grupo depende da preservação da narrativa de perseguição política, mas investigações com lastro financeiro e capilaridade em fundos de pensão públicos corroem o discurso de inocência e abrem flanco para adversários explorarem o viés de saque a recursos de servidores.
Além disso, o possível desmembramento dos inquéritos pode retirar a proteção do foro e expor aliados diretos de Flávio a processos na primeira instância, onde a tramitação tende a ser mais célere e a pressão judicial, maior. O senador, que já foi alvo da Operação Furna da Onça e viu seu gabinete ser associado ao esquema de rachadinha, coleciona pendências que podem ser catalisadas pelo novo capítulo do Master.
Se confirmada a participação de políticos com mandato no esquema, o STF terá de decidir se mantém a apuração ou a repassa para tribunais regionais, o que poderia acelerar a responsabilização e embaralhar o tabuleiro eleitoral de 2026. Enquanto isso, a PF não descarta novas fases das operações e amplia a cooperação com órgãos de fiscalização, como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
A defesa do banco Master nega todas as irregularidades e sustenta que as operações foram lícitas, mas os fatos apurados pela PF apontam para um modus operandi de emissão de títulos opacos e captação de recursos de entes públicos. Até o fechamento desta edição, a assessoria do senador Flávio Bolsonaro não havia se manifestado sobre os novos desdobramentos.
Leia também: Toda a cobertura dos escândalos da família Bolsonaro.
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