Menu

FIOL impõe prazo de 2026 contra histórico de 36 anos de atraso ferroviário no Brasil

A Ferrovia de Integração Oeste-Leste, com 1.527 km de trilhos entre a Bahia e o Tocantins, cristaliza o paradoxo logístico brasileiro: a urgência de escoar minério e grãos contra uma tradição de obras que atravessam gerações sem sair do canteiro. <p>Os trilhos são a geometria material do futuro, mas no Brasil essa geometria insiste em […]

sem comentários
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News
FIOL impõe prazo de 2026 contra histórico de 36 anos de atraso ferroviário no Brasil
FIOL impõe prazo de 2026 contra histórico de 36 anos de atraso ferroviário no Brasil

A Ferrovia de Integração Oeste-Leste, com 1.527 km de trilhos entre a Bahia e o Tocantins, cristaliza o paradoxo logístico brasileiro: a urgência de escoar minério e grãos contra uma tradição de obras que atravessam gerações sem sair do canteiro.

<p>Os trilhos são a geometria material do futuro, mas no Brasil essa geometria insiste em se dobrar ao tempo geológico das obras públicas. A Ferrovia de Integração Oeste-Leste, a FIOL, tem 1.527 quilômetros de extensão projetada em bitola larga de 1.600 milímetros, cortando o estado da Bahia de Ilhéus até a divisa com o Tocantins em Figueirópolis, onde se conectará à Ferrovia Norte-Sul.</p>

<p>O projeto é uma artéria de exportação desenhada para transportar minério de ferro do sul baiano e a explosão de grãos do oeste do estado diretamente ao Porto Sul, eliminando milhares de viagens de caminhão pelas rodovias esburacadas do interior. A carga que hoje queima diesel em comboios intermináveis pela BR-242 passaria a fluir sobre trilhos com eficiência energética oito vezes superior por tonelada-quilômetro, reduzindo o custo logístico de um país que ainda consome 12% do PIB para mover sua própria riqueza.</p>

<p>A engenharia da FIOL está fatiada em três segmentos que revelam o caráter errático do planejamento nacional. O Trecho 1, entre Caetité e Ilhéus com 537 quilômetros, foi entregue à iniciativa privada na figura da Bahia Mineração (Bamin) e tem prazo contratual até 2027.</p>

<p>O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um apelo direto aos empresários em julho de 2023 para antecipar a conclusão do Trecho 1 para dezembro de 2026, encurtando em um ano o cronograma original. Já o Trecho 2, que avança 485 quilômetros de Caetité até Barreiras, está com 65% das obras executadas e teve um novo edital lançado em setembro de 2025 para destravar os 127 quilômetros restantes do lote 1F.</p>

<p>O edital consome R$ 1,5 bilhão em recursos do Novo PAC e mira a conclusão desse segmento intermediário. O Trecho 3, de Barreiras a Figueirópolis com aproximadamente 505 quilômetros, dormita na gaveta aguardando a licença de instalação ambiental, sem uma única máquina de terraplenagem no horizonte visível do Tocantins.</p>

O peso simbólico e técnico da FIOL cresce quando se examina o Plano Nacional de Ferrovias que o ministro dos Transportes, Renan Filho, apresentou ao Palácio do Planalto projetando R$ 530 bilhões em 15 ativos ferroviários, dos quais R$ 138,6 bilhões já estão confirmados. A FIOL é o coração do Corredor Leste-Oeste, uma espinha dorsal de 2.400 quilômetros que o governo pretende unir à Ferrovia de Integração do Centro-Oeste, a FICO, atualmente em execução pela Vale como contrapartida de renovação contratual.

<p>A realidade concreta dos trilhos brasileiros, no entanto, é menos generosa que os mapas coloridos dos planos nacionais. A Ferrovia Norte-Sul, concluída somente em 2023, consumiu 36 anos desde o início das obras em 1987, um intervalo em que a China implantou mais de 40 mil quilômetros de ferrovias de alta velocidade, o equivalente a uma volta completa na circunferência da Terra.</p>

Os Estudos de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental da FIOL ficaram prontos em 2008, o Projeto Básico em 2011 e o Executivo em 2013, conforme detalha a Infra S.A. em seu portal de estudos e projetos ferroviários. A caneta dos engenheiros riscou o sertão baiano há quase duas décadas, mas os trilhos ainda não chegaram a lugar nenhum como sistema integrado e funcional.

<p>O custo desse compasso letárgico é medido em competitividade perdida. O Brasil exporta por ferrovias apenas 17% do que produz, uma fração que o ministro Renan Filho quer elevar a 40% até 2035, mas que depende de uma taxa de investimento em infraestrutura hoje estagnada em 2,24% do PIB, metade do necessário para tapar os buracos acumulados desde os anos 1980.</p>

<p>As obras da FIOL e das demais ferrovias do país empregam cerca de 66 mil trabalhadores diretos, como o engenheiro civil Álvaro Aguiar, que começou como auxiliar de serviços gerais no canteiro em 2013 e hoje fiscaliza a execução pela Infra S.A. O cronograma, porém, ainda depende de licenciamentos que podem levar mais tempo que a própria terraplenagem.</p>

<p>A pressão para entregar o Trecho 1 até dezembro de 2026 é um sinal de que o governo reconhece o abismo entre o discurso desenvolvimentista e a paciência do mercado internacional de commodities. O minério brasileiro perde margem para concorrentes australianos que operam com logística mais confiável e previsível.</p>

<p>O Brasil tem 1.527 quilômetros de projeto pronto, EVTEA aprovado desde 2008 e a determinação geológica de uma bacia mineral que não vai se esgotar enquanto os trâmites burocráticos se arrastam. O país domina a engenharia de túneis e pontes para atravessar a Chapada Diamantina e tem o capital privado batendo à porta com R$ 100 bilhões em intenções de investimento, mas ainda precisa que o presidente peça aos empresários que antecipem uma obra cujo projeto executivo está concluído desde 2013.</p>

Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News

Comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário

Escreva seu comentário

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!


Leia mais

Recentes

Recentes