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Fossa das Marianas engole o Everest e ainda sobra abismo de mais de 2 quilômetros

Ilustração editorial sobre Fossa das Marianas engole o Everest e ainda sobra abismo de mais de 2 quilômetros. (Ilustração: Cafezinho / Wan 2.6) Se o Monte Everest fosse brutalmente arrancado do Himalaia e despejado no ponto mais fundo do oceano, seu cume ainda repousaria imerso em uma escuridão absoluta, a mais de dois quilômetros abaixo […]

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Ilustração editorial sobre Fossa das Marianas engole o Everest e ainda sobra abismo de mais de 2 quilômetros. (Ilustração: Cafezinho / Wan 2.6)

Se o Monte Everest fosse brutalmente arrancado do Himalaia e despejado no ponto mais fundo do oceano, seu cume ainda repousaria imerso em uma escuridão absoluta, a mais de dois quilômetros abaixo da superfície marinha. A Fossa das Marianas, um abismo que rasga o leito do Pacífico ocidental, é tão mais profunda do que a montanha é alta que a soberba geológica humana desaparece de imediato nesse confronto de escalas.

O Everest, medido com precisão cirúrgica por uma missão conjunta China-Nepal em 2020, alcança exatos 8.848,86 metros acima do nível médio do mar, encerrando uma disputa cartográfica de décadas entre as duas nações. Já o abismo Challenger, dentro da Fossa das Marianas, oscila entre aproximadamente 10.935 e 10.994 metros de profundidade, uma variação de quase 60 metros que equivale a um edifício de vinte andares, segundo medições independentes compiladas por oceanógrafos.

A comparação é justa e visualmente estarrecedora: mesmo considerando a margem de erro, o topo do Everest jamais emergiria, afogando-se em um azul tão denso que a luz solar jamais o tocaria. O que torna esse exercício mental ainda mais fascinante é a incerteza que cerca o próprio abismo, uma ferida tectônica que desafia a régua dos homens com a mesma fúria com que oculta seus segredos.

O Challenger Deep não é um único ponto fixo, mas um intrincado conjunto de bacias submersas, cada uma com mais de dez mil metros de coluna d’água, o que transforma a tarefa de achar o local exato do fundo em um enigma logístico e acústico. O som, ferramenta indispensável para mapear essas regiões inóspitas, viaja pela água em velocidades que se curvam conforme a temperatura, a pressão e a salinidade ao longo de onze quilômetros de percurso, introduzindo correções que inevitavelmente carregam suas próprias imprecisões.

Um levantamento de sonar realizado em 2010 pela Universidade de New Hampshire, e reportado pela NOAA, crava a profundidade em 10.994 metros com uma incerteza de cerca de 40 metros, enquanto um estudo posterior, publicado em 2021 e baseado em mergulhos de submersíveis tripulados, reduziu o número para 10.935 metros, com uma precisão de mais ou menos seis metros. Essas discrepâncias não desmentem o fato central de que o Everest sucumbiria por uma margem confortável, mas revelam o quão mais difícil é enxergar através da água do que através do vácuo do espaço.

Conforme detalhou uma análise do portal SpaceDaily, a referência comum de nível médio do mar garante que a comparação entre a montanha mais alta e o abismo mais fundo seja perfeitamente válida, um duelo de opostos absolutos no mesmo planeta. O Everest não é a montanha mais alta se considerarmos sua base integral: o Mauna Kea, no Havaí, ergue-se mais de 10 mil metros a partir do assoalho oceânico, e o Chimborazo, nos Andes, ostenta o cume mais distante do centro da Terra graças à protuberância equatorial do planeta.

No entanto, para uma disputa de puro distanciamento vertical a partir do nível do mar, o colosso himalaio permanece o marco insuperável — e ainda assim perde por uma margem humilhante para a garganta do Pacífico. Esse desnível descomunal escancara uma das ironias mais contundentes da ciência contemporânea: mapeamos com nitidez estonteante as crateras lunares que qualquer telescópio de quintal pode discernir, mas nosso próprio assoalho oceânico segue envolto em uma névoa de dados grosseiros.

A razão é física, não desinteresse: a luz e o radar, que permitem esculpir a topografia de Marte ou Vênus a partir da órbita, simplesmente não penetram na água salgada por mais do que algumas centenas de metros, como explica o Serviço Geológico dos Estados Unidos. Para cartografar o fundo do mar, é necessário fazer o som ricochetear metro a metro a partir de navios ou submersíveis, um processo tão lento quanto medir um continente a pé em vez de fotografá-lo do alto.

A afirmação popular de que conhecemos melhor a superfície da Lua do que o leito dos oceanos é verdadeira em um sentido crucial, embora exagerada em outro: um mapa global do fundo marinho existe, mas sua textura é em grande parte inferida a partir de medições indiretas da superfície oceânica por satélites, com resolução suficiente apenas para revelar as formas maiores. Mapas topográficos de alta definição de Marte e Vênus são muito mais nítidos do que essa colcha de retalhos, e quando se exige mapeamento de alta resolução – a régua fina da verdade cartográfica – a NOAA projeta que até abril de 2026 apenas 28,7% do fundo oceânico terá sido detalhado com precisão, um salto em relação aos tristes 6% registrados no início da iniciativa Seabed 2030.

Assim, o lugar mais profundo da Terra permanece, naquilo que importa para a precisão absoluta, menos esquadrinhado do que as planícies marcianas ou as crateras da Lua que um astrônomo amador consegue identificar numa noite clara. A verdade que essa curiosidade esconde não é apenas a imensidão do abismo, mas a constatação de que o domínio tecnológico humano ainda tropeça diante da barreira líquida que cobre a maior parte do nosso próprio mundo.

A medição do Everest, um pico que finca sua rocha no ar rarefeito, pode ser declarada com orgulho e exatidão em frações de metro, enquanto a profundidade da Fossa das Marianas segue flutuando entre dezenas de metros de incerteza, como se a própria hidrosfera se recusasse a entregar seu segredo terminal. E é justamente essa assimetria — entre a montanha que tocamos com botas e o abismo que só conhecemos por ecos distorcidos — que nos lembra que a exploração não chegou ao fim, mas apenas mudou de endereço, descendo para o silêncio esmagador onde até o Everest seria engolido sem deixar rastro.


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