O espelho primário do Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, da Nasa, recebeu sua última inspeção visual nas instalações do Centro Goddard, em Greenbelt, Maryland, antes de ser despachado para o local de lançamento. Engenheiros concluíram que a peça de 2,4 metros de diâmetro está impecável e pronta para coletar a luz de objetos cósmicos distantes com precisão sem precedentes.
No dia 20 de maio, a equipe virou o observatório de lado e acionou a ‘cobertura’ que protegerá o espelho durante o voo, realizando em seguida uma verificação meticulosa em busca de partículas indesejadas. Conforme detalhou a Nasa, a inspeção confirmou que nenhum resquício de poeira comprometeu a superfície após os testes de vibração e alinhamento.
J. Scott Smith, gerente do telescópio Roman no Goddard, descreveu o momento como ‘profundamente humilhante’ e destacou o simbolismo de ver o instrumento pela última vez antes que ele se torne os olhos da humanidade. ‘É a culminação do trabalho árduo de tantos indivíduos, equipes e organizações parceiras, incluindo a L3Harris’, afirmou o engenheiro-chefe da missão.
Bente Eegholm, líder de óptica do Conjunto do Telescópio Óptico do Roman, revelou o método de inspeção com câmera de alta resolução e zoom potente, afirmando que ‘o espelho passou com louvor’. A aprovação mantém a missão no cronograma para um lançamento no início de setembro, conforme planejado pelo programa.
Os engenheiros acompanharam o caminho óptico que a luz percorrerá até o conjunto de detectores do Wide Field Instrument e confirmaram que o alinhamento permanece perfeitamente ajustado mesmo após os rigorosos testes de vibração. A checagem assegura que cada fóton captado pelo espelho será direcionado com a máxima fidelidade, essencial para imagear objetos extremamente tênues espalhados pelo cosmos.
Projetado para realizar levantamentos de grandes áreas do céu, o Roman capturará imagens cem vezes maiores que as do Hubble em uma única exposição, acelerando a descoberta de exoplanetas e supernovas distantes. Essa capacidade de varredura ampla o transforma em um instrumento ideal para mapear a teia cósmica e investigar a influência da energia escura na expansão do universo.
O polimento do espelho atinge uma suavidade impressionante: a irregularidade média na sua superfície é de apenas 1,2 nanômetros — mais de duas vezes mais liso do que a exigência da missão. Se o espelho fosse ampliado até o tamanho da Terra, essas imperfeições teriam meros 0,6 centímetro de altura, o que ilustra a precisão nanométrica alcançada pelos engenheiros.
Revestida com uma camada de prata de menos de 400 nanômetros de espessura — cerca de 200 vezes mais fina que um fio de cabelo humano —, a superfície foi escolhida por sua alta refletividade no infravermelho próximo. Enquanto o Hubble utiliza alumínio e fluoreto de magnésio para otimizar a luz visível e ultravioleta, e o James Webb recorre a um banho de ouro para observações no infravermelho mais longo, o Roman aposta na prata para mapear o cosmos em comprimentos de onda específicos.
O banho de prata do Roman reflete com excelência a luz no infravermelho próximo, região espectral ideal para estudar a expansão do universo e a distribuição da matéria escura. Já o espelho do Webb, com sua cobertura de ouro, é otimizado para o infravermelho médio, enquanto o Hubble privilegia o espectro visível, formando uma tríade complementar de observatórios espaciais.
Fabricado com um vidro especial de expansão ultrabaxa, o espelho resiste a deformações causadas por mudanças bruscas de temperatura, como a transição do ambiente terrestre para o gelo do espaço profundo. Essa estabilidade preserva a nitidez das imagens, pois qualquer flexão da superfície distorceria as capturas do telescópio e comprometeria a missão científica.
Josh Abel, engenheiro-chefe de sistemas do Conjunto do Telescópio Óptico no Goddard, expressou orgulho pelo sistema entregue em parceria com a L3Harris, declarando que, ‘agora que está montado, alinhado e reluzente, estamos prontos para ir’. A equipe prepara o embarque do observatório para o Centro Espacial Kennedy, na Flórida, nas próximas semanas.
Agora, toda a estrutura do observatório será acondicionada e transportada até o Cabo Canaveral, onde passará pelas últimas integrações com o foguete lançador. A contagem regressiva está em andamento, e a comunidade científica aguarda ansiosamente as primeiras imagens de um telescópio projetado para mapear o céu com velocidade e amplitude inéditas.
Após o lançamento, previsto para setembro, a Nasa espera que a missão comece a retornar panoramas cósmicos deslumbrantes dentro de alguns meses. O telescópio Roman ampliará o legado do Hubble e do Webb, oferecendo campos de visão centenas de vezes maiores para desvendar mistérios da energia escura e da formação de galáxias.
O olho prateado do Roman, com seus 2,4 metros de diâmetro, funcionará como o coração óptico de um observatório que promete reescrever capítulos da astrofísica. Com polimento atômico e revestimento nanométrico, o espelho está pronto para captar a luz que viajou bilhões de anos até nós, inaugurando uma nova era na exploração do universo profundo.
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