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Continente fantasma escondido sob o Pacífico desafia os mapas e a geopolítica oceânica

Ilustração editorial sobre Continente fantasma escondido sob o Pacífico desafia os mapas e a geopolítica oceânica. (Ilustração: Cafezinho / Wan 2.6) O ferry Interislander desliza entre Wellington e Picton carregando turistas, caminhões de carga e passageiros que cruzam o estreito de Cook convencidos de que atravessam apenas um braço de mar entre as duas grandes […]

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Ilustração editorial sobre Continente fantasma escondido sob o Pacífico desafia os mapas e a geopolítica oceânica. (Ilustração: Cafezinho / Wan 2.6)

O ferry Interislander desliza entre Wellington e Picton carregando turistas, caminhões de carga e passageiros que cruzam o estreito de Cook convencidos de que atravessam apenas um braço de mar entre as duas grandes ilhas da Nova Zelândia, sem jamais desconfiar que as falésias à esquerda e à direita são os picos expostos de um continente quase inteiramente submerso e maior que o subcontinente indiano.

Por quase toda a história humana aquele território imenso permaneceu invisível sob mais de um quilômetro de água, e a travessia de três horas que milhares de pessoas fazem anualmente passa por uma das fronteiras geológicas mais discretas do planeta.

Em 1995, o geofísico Bruce Luyendyk, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, propôs um nome com a naturalidade de quem apenas corrige um catálogo: Zealandia, a fatia de crosta continental que se estendia muito além da costa neozelandesa e que claramente não era apenas um acidente do assoalho oceânico.

Luyendyk não reivindicou naquele momento o título de continente pleno, apenas apontou que as rochas graníticas, os xistos e os arenitos dragados das cristas submersas compartilhavam a mesma laje ancestral e precisavam de uma etiqueta comum.

O nome grudou em um círculo restrito de geólogos marinhos, mas fora dele permaneceu como uma curiosidade técnica sem força para reescrever os atlas, porque a ideia de um oitavo continente com 94 por cento de seu corpo debaixo do Pacífico Sul parecia mais um delírio de especialistas do que um fato que pudesse frequentar os livros escolares.

A virada ocorreu em 2017, quando o geólogo Nick Mortimer, da GNS Science, e dez coautores publicaram na revista GSA Today um artigo que transformava a sugestão de Luyendyk em um reconhecimento formal, apoiado nos quatro critérios que a disciplina usa para definir um continente.

Elevação acima do leito oceânico circundante, uma crosta significativamente mais espessa que a das bacias abissais, uma variedade de rochas ígneas, metamórficas e sedimentares típicas de plataformas continentais, e limites bem definidos que a tornassem maior que um microcontinente — tudo isso foi demonstrado com décadas de batimetria, dragagens e leituras de gravidade, conforme detalhou o portal Space Daily em uma análise minuciosa do processo.

A crosta sob Zealandia atinge de 10 a 30 quilômetros de espessura, contra cerca de 7 quilômetros da crosta oceânica que a rodeia, e o platô submerso repousa de um a dois quilômetros acima do assoalho vizinho, estendendo-se por uma área de aproximadamente 4,9 milhões de quilômetros quadrados.

A equipe de Mortimer não tratou o anúncio como uma descoberta súbita, e sim como o reconhecimento de algo que tinha sido mapeado lentamente durante meio século e que agora a evidência acumulada tornava incontornável.

O artigo de 2017 citou explicitamente o nome proposto por Luyendyk, e aquela palavra que durante vinte e dois anos pairou no limbo tornou-se o rótulo natural para o continente que os onze cientistas acabavam de descrever formalmente.

A história da submersão de Zealandia é uma epopeia de estiramento e fogo, que começou há cerca de 105 milhões de anos, quando a borda leste do supercontinente Gondwana — que abrigava Austrália, Antártida, América do Sul, Índia e a futura Zealandia — começou a se romper com uma atividade vulcânica colossal que uma reconstrução de 2025 liderada por Luca Dal Zilio descreveu como uma inundação de fogo.

À medida que a crosta estirava, ela afinava, e crosta mais fina se acomoda mais baixo, de modo que por volta de 80 milhões de anos atrás Zealandia já estava completamente separada e sua superfície, antes montanhosa e florestada, iniciou um mergulho que a levaria a repousar sob o Pacífico.

Há cerca de 23 milhões de anos a maior parte já jazia submersa, e os geólogos ainda debatem se alguma porção permaneceu continuamente acima das ondas — uma resposta que define se o tuatara, o kiwi e as árvores kauri do norte neozelandês são sobreviventes de uma linhagem ininterrupta que cavalgou Zealandia para o fundo ou se são colonizadores tardios que dispersaram sobre um arquipélago reerguido.

O trabalho cartográfico que iluminou esse continente às cegas veio de décadas de batimetria, a topografia submarina, coletada por navios e satélites, e a GNS Science e colaboradores divulgaram recentemente o que chamam de primeiro mapa completo de Zealandia, revelando em detalhes a geologia dos dois terços setentrionais que antes eram apenas suspeitas e confirmando um cinturão de rochas de zona de subducção que corta o interior submerso.

Levantamentos modernos empregam lidar, sonar e veículos de superfície não tripulados para cartografar profundidades que durante a maior parte da história humana eram medidas com um peso de chumbo na ponta de uma corda, acumulando porcentagens de conhecimento que nunca produziram um instante grandioso de navegador a avistar terra, e sim uma lenta pilha de dados até que o nome proposto por um geofísico em 1995 se impusesse a onze sucessores.

Os Alpes do Sul da Ilha Sul, que se erguem acima dos 3700 metros no Aoraki Mount Cook, são o ponto mais alto de uma massa de terra cuja elevação média fica mais de um quilômetro abaixo do nível do mar, e abaixo do casco do ferry o restante desse continente escuro e granítico se estende por quase dois mil quilômetros em todas as direções.

A confirmação de Zealandia como continente não é apenas um acerto de contas com a nomenclatura geológica, porque a existência de uma plataforma continental tão vasta e quase toda submersa mexe com cálculos de soberania e com a arquitetura do direito do mar que distribui direitos de exploração de recursos minerais e genéticos no fundo oceânico.

A Nova Zelândia e a França (por meio da Nova Caledônia) já administram a porção emersa, mas a definição exata dos limites da plataforma continental estendida abaixo de Zealandia pode redesenhar pretensões de jurisdição sobre áreas onde repousam nódulos polimetálicos e ecossistemas quimiossintéticos que interessam tanto a potências estabelecidas quanto a nações do Sul Global atentas à repartição da riqueza submarina.

Em um planeta onde o domínio do mar profundo se tornou a fronteira silenciosa da geopolítica multipolar, a revelação de que um oitavo continente existiu sempre à vista, mas nunca foi nomeado, funciona como uma advertência de que o mundo ainda guarda territórios que a imaginação cartográfica não domesticou completamente.

Das janelas do Interislander, as falésias de ambos os lados não são a beira de uma cadeia de ilhas, e sim as montanhas mais altas de uma terra afogada que onze cientistas confirmaram em 2017, um homem batizou em 1995 e cujo mapa integral só ficou pronto há poucos anos, enquanto a quase dois mil metros de profundidade o granito de Zealandia aguarda que os atlas escolares finalmente se curvem à evidência.


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