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DB Cargo equipa primeira locomotiva de carga automatizada da Europa em salto tecnológico na Alemanha

Com 18,86 milhões de euros do governo alemão, projeto testará operação automática e remota na Betuweroute a partir de outubro, abrindo caminho para eficiência inédita no transporte ferroviário de mercadorias. <p>Toda grande cidade revela sua inteligência pelo modo como desloca as pessoas, mas é no transporte de cargas que uma economia expõe sua verdadeira sofisticação […]

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DB Cargo equipa primeira locomotiva de carga automatizada da Europa em salto tecnológico na Alemanha
DB Cargo equipa primeira locomotiva de carga automatizada da Europa em salto tecnológico na Alemanha

Com 18,86 milhões de euros do governo alemão, projeto testará operação automática e remota na Betuweroute a partir de outubro, abrindo caminho para eficiência inédita no transporte ferroviário de mercadorias.

<p>Toda grande cidade revela sua inteligência pelo modo como desloca as pessoas, mas é no transporte de cargas que uma economia expõe sua verdadeira sofisticação industrial. A Europa acaba de dar um passo silencioso e contundente nessa direção: pela primeira vez no continente, uma locomotiva de carga foi convertida para operação totalmente automatizada e remota.</p>

O feito ocorreu no centro de manutenção de Köln-Gremberg, onde a DB Cargo, maior operadora ferroviária de cargas da Europa, concluiu a adaptação de uma Strecken-Lok — locomotiva de linha — com tecnologias de Automatic Train Operation (ATO) e Remote Train Operation (RTO). O projeto, segundo informou a Deutsche Bahn em seu portal oficial, recebeu 18,86 milhões de euros do programa federal alemão Zukunft Schienengüterverkehr, destinado a acelerar inovações no setor.

<p>No modo ATO, a locomotiva acelera, mantém velocidade de cruzeiro, freia e para automaticamente, sem intervenção humana direta. Um maquinista permanece a bordo por exigência de segurança, mas a operação é supervisionada remotamente por uma central de controle que monitora cada parâmetro em tempo real.</p>

<p>O consórcio que viabilizou a conversão reúne o Deutsches Zentrum für Luft- und Raumfahrt (DLR), a Hitachi Rail e a Remoot, combinando expertise aeroespacial, ferroviária e de telecomando. A fase de testes terá duração de um ano e começará em outubro, utilizando a Betuweroute, o principal corredor ferroviário de carga da Holanda e uma das rotas mais modernas da Europa.</p>

<p>Durante o período de validação, a locomotiva enfrentará cenários reais com diferentes composições: de pesados vagões de granéis sólidos a unidades-tanque parcialmente carregadas, situações que testam a capacidade do sistema de ajustar aceleração e frenagem conforme a massa variável do trem. Será também a primeira vez que as tecnologias ATO e RTO operarão combinadas em uma rede ferroviária aberta, fora de ambientes controlados.</p>

<p>A Dra. Sigrid Nikutta, diretora de carga da Deutsche Bahn AG e presidente do conselho da DB Cargo AG, definiu o avanço como estrutural para a competitividade do modal. “Locomotivas automatizadas utilizam os trilhos de forma mais eficiente, criando mais capacidade e melhor qualidade no transporte ferroviário de cargas”, afirmou a executiva, ressaltando que a transferência de mercadorias das estradas para os trilhos é o maior e mais efetivo instrumento para reduzir emissões de CO2 no setor logístico.</p>

<p>O ministro federal dos Transportes da Alemanha, Patrick Schnieder, também se pronunciou sobre o projeto, destacando o impacto da automação na crise de mão de obra qualificada que atinge o setor. “O trem automatizado alivia os trabalhadores e ao mesmo tempo cria postos de trabalho preparados para o futuro”, disse o ministro, referindo-se ao envelhecimento da força de trabalho ferroviária e à dificuldade de atrair novos profissionais para a função de maquinista.</p>

<p>A digitalização do Schienengüterverkehr — o transporte ferroviário de mercadorias — é uma obsessão técnica na Alemanha, país que movimenta mais de 400 milhões de toneladas anuais por trilhos e enfrenta saturação em vários corredores. Cada ponto percentual retirado das rodovias e transferido para a ferrovia representa milhares de caminhões a menos nas estradas, economia de diesel e corte direto de emissões.</p>

<p>O projeto de Köln-Gremberg não é um protótipo de laboratório, mas uma locomotiva de linha real adaptada para demonstrar que a tecnologia pode migrar rapidamente da bancada de testes para a malha comercial. A escolha da Betuweroute como palco dos ensaios é estratégica: a linha de 160 quilômetros conecta o porto de Roterdã à fronteira alemã e opera exclusivamente com trens de carga, oferecendo tráfego intenso e condições ideais para medição de desempenho.</p>

<p>O investimento federal alemão de quase 19 milhões de euros é parte de uma política mais ampla de transição modal que contrasta fortemente com a realidade brasileira. Enquanto a Alemanha financia a automação de locomotivas para tornar o trem de carga mais competitivo diante do caminhão, o Brasil ainda luta para concluir ferrovias convencionais planejadas há mais de três décadas.</p>

A Ferrovia Norte-Sul, por exemplo, levou décadas para ser integralmente concluída, com obras iniciadas nos anos 2000 e o último trecho entregue em 2023. A FIOL, Ferrovia de Integração Oeste-Leste, corta 1.527 quilômetros entre a Bahia e o Tocantins, mas permanece com dois de seus três trechos em obras ou aguardando licenças ambientais, conforme documentou o portal Click Petróleo e Gás ao analisar o Plano Nacional de Ferrovias.

<p>O plano brasileiro prevê R$ 530 bilhões em 15 ativos ferroviários, mas o país investe apenas 2,24% do PIB em infraestrutura, metade do que seria necessário para sustentar um programa dessa magnitude. O setor privado já responde por 72% desses investimentos, sinalizando que o Estado brasileiro perdeu capacidade de liderar grandes projetos de engenharia com recursos próprios.</p>

<p>A distância entre Colônia e a realidade brasileira não é apenas geográfica, mas de concepção estratégica. Enquanto a DB Cargo testa locomotivas que dispensam o maquinista da condução direta e operam remotamente, o Brasil debate se conseguirá entregar os 537 quilômetros do Trecho 1 da FIOL antes de 2027, mesmo com ordens presidenciais para acelerar o cronograma.</p>

<p>A automação ferroviária europeia tem consequências práticas mensuráveis: locomotivas que freiam e aceleram com precisão algorítmica consomem menos energia elétrica, reduzem o desgaste de truques e rodeiros e permitem intervalos menores entre trens no mesmo trecho, aumentando a capacidade da via sem necessidade de duplicação física.</p>

<p>No modo RTO, a possibilidade de operar remotamente abre caminho para que uma única central controle múltiplas composições em diferentes rotas, viabilizando o tráfego noturno de cargas em linhas que hoje operam apenas durante o dia por restrições de pessoal. Para um continente que movimenta 1,7 bilhão de toneladas anuais por ferrovia, ganhos marginais de eficiência se convertem em bilhões de euros economizados.</p>

<p>A DB Cargo enxerga na automação uma alavanca para transferir mais carga das rodovias para os trilhos até 2030, meta que exige aumentar a produtividade sem expandir proporcionalmente a frota de locomotivas e maquinistas. A locomotiva equipada em Köln-Gremberg é a primeira demonstração em escala real de que o Schienengüterverkehr pode dar esse salto sem depender de novas infraestruturas físicas, apenas com inteligência embarcada.</p>

<p>O contraste com a inércia logística brasileira é inevitável e pedagógico: o custo logístico no Brasil consome 12% do PIB, contra 8% nos Estados Unidos, e a diferença se explica em grande parte pela dependência crônica do modal rodoviário para movimentar grãos, minérios e insumos industriais. Cada ano de atraso na conclusão de ferrovias como a FIOL significa bilhões em diesel queimado, estradas esburacadas e produtos brasileiros menos competitivos no mercado internacional.</p>

<p>A experiência alemã demonstra que inovação ferroviária não exige apenas orçamento, mas continuidade institucional e uma visão de Estado que transcenda ciclos eleitorais. Quando o Parlamento alemão aprova um programa como o Zukunft Schienengüterverkehr e financia a modernização de locomotivas com verbas federais, está apostando em ganhos de produtividade que se materializarão ao longo de décadas, não em inaugurações de fim de mandato.</p>

<p>A locomotiva automatizada de Köln-Gremberg começará seus testes na Betuweroute em outubro, carregando contêineres e granéis entre o porto de Roterdã e a fronteira alemã, enquanto engenheiros do DLR e da Hitachi Rail analisarão cada curva de aceleração e cada ciclo de frenagem. Os dados gerados nesse ano de ensaios vão alimentar as especificações técnicas que, espera-se, tornarão a operação automatizada o novo padrão do transporte ferroviário de cargas no continente europeu.</p>

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