Uma escavação de três décadas na Caverna El Mirón, na Cantábria, Espanha, revelou uma das sequências de ocupação humana mais completas da Europa. O sítio arqueológico abrange desde os últimos neandertais até a Idade do Bronze.
Liderada por Lawrence Straus, da Universidade do Novo México, e Manuel González Morales, da Universidade da Cantábria, a pesquisa consolidou El Mirón como local persistente de habitação. Sucessivas gerações viveram, caçaram e enterraram seus mortos na caverna ao longo de 40 mil anos.
O projeto, iniciado em 1996, já produziu mais de 150 artigos científicos e duas monografias. Envolveu estudantes e especialistas de diversas partes do mundo em escavações que cobriram do Paleolítico Médio ao Calcolítico.
A descoberta mais marcante ocorreu em 2010, com o enterro ritual de uma mulher de 19 mil anos. Batizada de Dama Vermelha de El Mirón, seu esqueleto parcial estava coberto por ocre vermelho e depositado atrás de um bloco de pedra gravado.
O bloco, posicionado em ângulo de 40 graus e iluminado pelo sol no final da tarde, exibia gravações em forma de V. Especialistas sugerem que podem representar um triângulo púbico ou vulva, motivo comum na arte do Paleolítico Superior.
A disposição cuidadosa do corpo em posição fetal e o pigmento trazido de um afloramento a 25 quilômetros indicam tratamento funerário excepcional. A mulher pode ter sido matriarca, curandeira ou líder de seu grupo.
Análises de DNA realizadas pelo Instituto Max Planck revelaram que a Dama Vermelha pertencia a populações de caçadores-coletores do período Magdaleniano. Os estudos genéticos mostraram que ela tinha pele, cabelos e olhos escuros, desafiando suposições sobre a aparência dos europeus da Era do Gelo.
O cálculo dentário da Dama Vermelha preservou bactérias orais herdadas dos neandertais. Essas bactérias provavelmente foram transmitidas de mães para bebês entre as subespécies humanas que habitaram a região.
A caverna forneceu milhares de artefatos de pedra e osso, incluindo uma escápula de cervo decorada. A peça traz a imagem de uma fêmea da espécie, típica da arte móvel do Magdaleniano inferior na Cantábria.
Os arqueólogos encontraram evidências de caça sistemática de cervos, íbex, cavalos e camurças. Também identificaram pesca de salmão e truta, além de consumo de plantas, sementes e fungos como cogumelos.
A caverna serviu como espaço de moradia com lareiras e rochas termofraturadas para ferver água. Uma possível parede de pedra organizava o ambiente interno, indicando ocupações curtas e permanentes ao longo dos períodos climáticos.
Os níveis neolíticos, com cerca de 6.500 anos, trouxeram as primeiras evidências de agricultura de trigo na região. Também foram encontrados animais domesticados, cerâmica, poços de armazenamento e um furador de cobre, atestando o início da metalurgia.
Segundo reportagem do Phys.org, os pesquisadores obtiveram 102 datações por radiocarbono. Análises de DNA sedimentar revelaram material genético de carnívoros e humanos das camadas mais antigas.
Lawrence Straus destacou que o projeto testemunhou a transformação da arqueologia pré-histórica em ciência interdisciplinar. Incorporou genômica, isótopos estáveis e análises biomédicas que transformaram dentes em registros biológicos fossilizados.
As escavações em El Mirón devem ser retomadas em 2027. Os pesquisadores esperam que novas camadas e tecnologias expandam a compreensão sobre como humanos da Era do Gelo e primeiros agricultores viveram na Península Ibérica.
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