A Polícia Civil de São Paulo deflagrou a operação Wi-Fi Livre mirando contratos milionários da Prefeitura de São Paulo com o Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade presidida por Karina Ferreira da Gama, mesma produtora do filme ‘Dark Horse’ sobre Jair Bolsonaro. Horas após a divulgação, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência em 2026, correu para dissociar publicamente o caso da cinebiografia do pai.
A investigação apura fraudes em licitação que originalmente somava R$ 108 milhões, mas que, após aditivos, chegou a R$ 157,1 milhões, dos quais pelo menos R$ 26 milhões teriam sido pagos sem contrapartida de serviços, segundo os investigadores. A Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social de São Paulo acompanha o caso, que envolve instalação de pontos de wi-fi público em comunidades carentes do município.
Conforme reportagem do Terra, Flávio afirmou que a apuração ‘não tem nada a ver com o filme’, enquanto participava de um evento sobre transporte urbano no Rio de Janeiro. A produtora Go Up Entertainment, de Karina, foi a responsável por ‘Dark Horse’, que retrata em tom heroico o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A coincidência entre a empresa autora do longa e a entidade que recebeu recursos públicos volumosos de São Paulo levanta suspeitas sobre possíveis conflitos de interesse. Embora ainda não haja acusação formal contra Flávio ou seu pai, a rede de relações financeiras da produtora com o poder público amplia o desconforto político para o clã.
A Prefeitura de São Paulo, em nota, afirmou que repudia ‘veementemente ilações de desvios de recursos públicos’ e que o contrato seguiu ‘rigorosamente os princípios da legalidade’. Contudo, o inquérito foi instaurado por requisição do Ministério Público estadual, após denúncia de Leonardo Carvalho Bastos, membro do conselho de ética do PT de Sapucaia do Sul (RS), ao Ministério Público Federal.
A queixa partiu de uma base petista, o que insere o caso na gaveta das disputas político-eleitorais pré-2026. A denúncia formaliza suspeitas de fraude na execução de contratos, fraude em licitação e desvio de dinheiro que saiu dos cofres municipais para a ONG.
O senador Flávio Bolsonaro tenta afastar qualquer mancha de corrupção de sua imagem de pré-candidato, enquanto o partido PL o promove como herdeiro político natural do pai. O episódio, porém, soma-se a um histórico que inclui o escândalo das rachadinhas no seu gabinete quando era deputado estadual no Rio de Janeiro.
O caso das rachadinhas resultou em denúncia criminal contra Flávio, acusado de organização criminosa e peculato, embora o Supremo Tribunal Federal tenha anulado provas em 2021, travando temporariamente a ação. O novo episódio renova o debate sobre a blindagem judicial que a família Bolsonaro costuma alegar sofrer, mas que, na prática, tem conseguido adiar prestações de contas.
Em meio ao arco de investigações, ‘Dark Horse’ serve como potente ferramenta de propaganda política do ex-presidente, que busca construir um legado e fortalecer a campanha do filho. O fato de a mesma produtora estar sob suspeita de ter recebido aportes milionários com dinheiro público lança sombras sobre a independência e o financiamento dessa peça de comunicação.
A campanha de 2026 se articula em torno de um Flávio Bolsonaro que precisa vender a imagem de renovação sem desgrudar do sobrenome e do eleitorado bolsonarista. Qualquer escândalo que ligue desvio de verbas a uma obra de exaltação do clã tende a ser explorado por adversários como prova de uso da máquina pública para fins particulares e eleitoreiros.
A investigação ainda está em fase inicial, mas já mobiliza delegacias especializadas contra corrupção e lavagem de dinheiro. Os investigadores analisam como a ONG conseguiu contrato de R$ 108 milhões para instalar wi-fi gratuito e de que forma os aditivos elevaram os repasses a um patamar quase 50% superior.
Conforme os autos, a empresa contratada teria deixado de cumprir integralmente os serviços, mesmo assim recebeu pagamentos milionários. O esquema, se comprovado, pode configurar graves crimes contra a administração pública e enriquecimento ilícito.
Para Flávio, o distanciamento precoce do filme é uma tentativa de conter danos reputacionais antes que a investigação avance. O movimento revela o temor de que o caso respingue no núcleo duro do eleitorado, que se organiza a partir da ideia de honestidade bolsonarista, tão desgastada pelas diversas suspeitas envolvendo o pai e os irmãos.
A operação Wi-Fi Livre é mais um capítulo do cerco investigativo que ronda empresas e agentes próximos ao universo bolsonarista, desde os negócios obscuros com rachadinhas até a aquisição de imóveis em dinheiro vivo. A sociedade acompanha se a Justiça conseguirá manter o ritmo, especialmente com o Supremo Tribunal Federal sob pressão política em ano pré-eleitoral.
Com informações do portal Terra, este caso expõe a teia de contratos públicos que podem ter financiado indiretamente a máquina de propaganda bolsonarista. A campanha de 2026 já se vê obrigada a combater a narrativa de que o clã Bolsonaro se vale de esquemas para enriquecer às custas do Estado.
Leia também: Toda a cobertura dos escândalos da família Bolsonaro.
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