O Telescópio Espacial James Webb identificou a galáxia mais pobre em metais já observada no universo primitivo. A descoberta revela um estado químico praticamente intocado desde os primórdios cósmicos.
A galáxia, batizada de LAP1-B, existia cerca de 800 milhões de anos após o Big Bang. Foi detectada com auxílio de uma lente gravitacional que ampliou sua luz em cem vezes.
O professor Kimihiko Nakajima, da Universidade de Kanazawa, liderou a equipe internacional responsável pela descoberta. Ele descreveu o achado como um momento de profundo impacto científico.
‘Fiquei instantaneamente empolgado com a extrema falta de oxigênio revelada nos dados’, afirmou Nakajima. ‘Encontrar uma galáxia em estado tão primitivo é realmente surpreendente.’
A equipe utilizou os espectrômetros infravermelhos do Webb para determinar que a abundância de oxigênio na LAP1-B é 240 vezes menor que a do Sol. A galáxia também apresenta razão carbono-oxigênio elevada.
Esse perfil químico alinha-se com previsões teóricas para resquícios das explosões das primeiras estrelas do universo. Conhecidas como População III, essas estrelas são fundamentais para entender a formação dos elementos.
Após 30 horas de observação profunda, os astrônomos caracterizaram a composição química desse objeto tênue. Sua massa estelar não ultrapassa 3.300 massas solares.
A leveza extrema sugere que a maior parte da galáxia é composta por um halo de matéria escura. Essa característica é típica das galáxias anãs ultrafrias encontradas nas vizinhanças da Via Láctea.
O professor Masami Ouchi, do Observatório Astronômico Nacional do Japão, destacou a importância do elo descoberto. ‘As galáxias anãs ultrafrias não são apenas as mais tênues’, explicou.
‘Elas são compostas por estrelas antigas com mais de 12 bilhões de anos. São frequentemente descritas como fósseis do universo’, completou Ouchi.
A descoberta, LIVESCIENCE, fornece a primeira evidência observacional direta que conecta esses fósseis cósmicos às galáxias ancestrais do universo primordial.
Antes desse achado, astrônomos suspeitavam que as galáxias anãs ultrafrias fossem remanescentes das primeiras galáxias. A pobreza em elementos pesados reforçava essa hipótese, mas nunca havia sido estabelecido um vínculo direto.
Durante a Época da Reionização, entre 380 mil e 1 bilhão de anos após o Big Bang, o universo estava preenchido por hidrogênio neutro. As fontes de luz desse período são tão antigas que seu brilho se deslocou para o infravermelho.
O Webb, com sua sensibilidade sem precedentes, conseguiu atravessar esse véu cósmico. Capturou a assinatura química de uma galáxia que mal começara a forjar elementos mais pesados que hidrogênio e hélio.
Nakajima ressaltou que a assinatura química encontrada indica uma galáxia primordial flagrada nos momentos imediatamente posteriores à sua formação. A equipe planeja usar os dados do Webb para buscar objetos ainda mais quimicamente primitivos.
A expectativa é mapear o nascimento dos elementos que compõem a matéria como a conhecemos. A busca inclui as primeiras galáxias já formadas no universo.
Leia também: James Webb revela a galáxia mais quimicamente primitiva do universo antigo e reescreve origens cósmicas
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Clotilde Pátria
01/06/2026 - 02h11
Gente, pelo amor de Deus, essa galáxia primitiva de 800 milhões de anos… Isso é mais uma invenção desses cientistas ateus querendo negar a Criação! O dinheiro que gastaram nesse telescópio dava pra comprar milhares de cestas básicas pro povo brasileiro, mas preferem ficar olhando pro céu atrás de teoria comunista. Amém ?
Pedro Almeida
01/06/2026 - 02h15
Clotilde, sua crítica ao custo do telescópio até teria algum eco num país que priorizasse ciência como política de Estado, mas reduzi-la a uma suposta conspiração comunista dos astrofísicos revela a mesma operação ideológica que outrora chamava Galileu de herege por ousar olhar para o céu com outros olhos. A questão não é escolher entre cestas básicas e telescópios — é entender que um povo sem investimento em conhecimento continuará refém de discursos que confundem ignorância com fé.
Silvia Ramos
01/06/2026 - 02h00
Que maravilha ver como a ciência confirma a grandeza da criação de Deus! O Salmo 19 já diz que os céus declaram a glória dEle. Essa galáxia primitiva me faz lembrar que o Senhor criou tudo com perfeição desde o princípio, e não precisamos de teorias que tentam negar a mão do Criador.
Paulo Ribeiro
01/06/2026 - 02h02
Silvia, que interessante você trazer o Salmo 19 para dialogar com a astrofísica. Como professor de filosofia, não posso deixar de notar a operação ideológica que se realiza nesse movimento de ler a natureza como livro divino. O problema não é a sua fé, evidentemente, mas o uso que se faz dela para encerrar a ciência num dogma criacionista que, no fundo, trava justamente a compreensão materialista do cosmos. Essa galáxia que o James Webb detectou não é “primitiva” no sentido de imperfeita, mas sim no sentido de ser um estágio inicial da complexificação da matéria. Ela nos mostra que o universo passou por transformações reais, históricas, que contradizem a ideia de uma criação acabada e estática desde o princípio. Gramsci já nos alertava que todo projeto hegemônico busca naturalizar as relações sociais e, nesse caso, a natureza mesma. Interpretar a ciência como confirmação de um texto sagrado é uma forma de imobilizar o pensamento crítico e impedir que enxerguemos as contradições do real.
A astrofísica moderna, especialmente com descobertas como essa, nos convida a pensar um universo em devir, um processo dialético de formação de elementos químicos, estrelas e galáxias. Não há “mão do Criador” ali, há a atividade da matéria em movimento. O próprio Mariátegui, ao resgatar o mito andino como força revolucionária, sabia distinguir entre um misticismo que paralisa e uma espiritualidade que impulsiona a transformação. Sua leitura, Silvia, me parece cair no primeiro caso: ela transforma uma descoberta científica em mais um certificado de imutabilidade divina. Mas a ciência, quando levada a sério, é uma ferramenta de desencantamento do mundo, como dizia Weber, e não de reencantamento dogmático. Essa galáxia primitiva, com sua composição química quase que exclusivamente de hidrogênio e hélio, nos mostra o passado do universo, um passado que não tinha “perfeição” alguma, mas sim um potencial gigantesco de vir a ser.
Por fim, acho importante lembrar que, historicamente, a aliança entre dogmatismo religioso e poder estabelecido sempre serviu para frear a ciência quando ela contradiz interesses de classe. Galileu, Darwin, todos sofreram com isso. Hoje, com um telescópio que enxerga bilhões de anos-luz, temos a chance de superar essas amarras ideológicas e construir um conhecimento verdadeiramente emancipatório. Não se trata de negar sua crença, Silvia, mas de perguntar: a quem serve essa leitura da realidade? A um povo que precisa de resignação celestial ou a um povo que precisa entender as leis materiais do universo para transformar sua própria condição social? A resposta está na história, e não nos Salmos.
Carlos Henrique Silva
01/06/2026 - 02h08
Silvia, é sempre fascinante observar como uma descoberta científica que aponta para um universo muito mais antigo, caótico e materialmente contingente do que qualquer texto sagrado poderia prever é imediatamente apropriada como “confirmação” de uma narrativa teológica prévia. O que me chama atenção não é sua fé em si, mas o movimento ideológico que ela realiza: a ciência deixa de ser um método provisório, autocorretivo e materialista para se tornar um oráculo que valida convicções estabelecidas antes mesmo da observação. Essa galáxia quimicamente primitiva, composta quase só de hidrogênio e hélio, nos conta justamente que não houve “perfeição desde o princípio” — houve um processo histórico de fusões nucleares em estrelas massivas que enriqueceram o cosmos ao longo de bilhões de anos. O que o telescópio revela é um universo em devir, não uma criação estática.
Do ponto de vista da crítica da ideologia, o que você faz é o que Antonio Gramsci chamaria de hegemonia cultural: você toma um produto da prática científica material — fruto de séculos de luta contra o pensamento dogmático, de Galileu a Darwin — e o reinscreve no vocabulário religioso que exatamente a ciência moderna ajudou a superar como explicação do mundo natural. Não há problema em ter fé; o problema é quando a fé coloniza o significado de descobertas que, em si mesmas, apontam para a ausência de qualquer desígnio inteligível. Se o criador é perfeito, por que sua criação primitiva era tão pobre quimicamente? Por que precisou de 13,8 bilhões de anos de violência estelar, supernovas e colisões para produzir os elementos que formam seu próprio corpo? A ciência materialista responde: porque não havia criador, havia apenas matéria em movimento.
Eu sei que soa duro, mas a beleza dessa descoberta do JWST está justamente em nos devolver um cosmos sem dono, sem roteiro prévio, onde cada átomo de carbono em seu corpo foi forjado no núcleo de uma estrela que explodiu antes do Sol existir. Isso não é menos maravilhoso do que o salmo — é mais, porque nos coloca como parte de uma história cósmica real, não como espectadores de um espetáculo montado por um patrão celestial. A pergunta que fica é: por que tanta necessidade de encaixar a realidade num texto antigo, quando a realidade, em sua complexidade material, já é tão extraordinária? Talvez porque, como Marx e Engels observaram na Ideologia Alemã, as ideias dominantes de uma época são sempre as ideias da classe dominante — e o criador patriarcal, onipotente e hierárquico é o reflexo celeste de uma ordem social que se quer imutável, hierárquica e desigual aqui na Terra.