Menu

Cientistas recriam em laboratório evolução da Covid até a ômicron e revelam condição decisiva

Uma colaboração científica entre Israel e a República Tcheca recriou em tubos de ensaio, em questão de meses, a trajetória evolutiva que o coronavírus percorreu durante a pandemia de Covid-19 — da cepa original de Wuhan até o surgimento e domínio da variante ômicron. O experimento, publicado na revista Nature Communications, identificou que a pressão […]

sem comentários
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News
Dois cientistas em laboratório analisam amostras, em pesquisa sobre evolução viral. (Foto: phys.org)
Dois cientistas em laboratório analisam amostras, em pesquisa sobre evolução viral. (Foto: phys.org)

Uma colaboração científica entre Israel e a República Tcheca recriou em tubos de ensaio, em questão de meses, a trajetória evolutiva que o coronavírus percorreu durante a pandemia de Covid-19 — da cepa original de Wuhan até o surgimento e domínio da variante ômicron. O experimento, publicado na revista Nature Communications, identificou que a pressão seletiva forte, como a observada em pacientes imunocomprometidos, foi o motor essencial para o salto de contagiosidade que redefiniu a pandemia. A chave da descoberta, conforme detalhado pelo portal phys.org, está na diferença entre dois regimes de pressão evolutiva testados.

Sob pressão fraca, muitas variantes sobrevivem, e mutações benéficas se diluem ao arrastar mutações neutras ou prejudiciais. Sob pressão forte, apenas as mais aptas resistem, e as mutações vantajosas rapidamente se tornam dominantes, sem carregar alterações genéticas inúteis. Quando os cientistas submeteram a cepa original de Wuhan e variantes como Alfa e Beta a esse regime de alta pressão, o resultado foi surpreendente: em todos os casos, emergiu uma variante extremamente similar à ômicron e suas subvariantes, que rapidamente dominava toda a população viral do experimento. Independentemente da variante inicial, sob pressão seletiva forte, uma variante notavelmente parecida com a ômicron surgia cedo e tomava conta de tudo, afirmou Gideon Schreiber, professor do Instituto Weizmann de Ciência, em Israel.

O experimento reproduziu em laboratório a mesma dinâmica observada entre bilhões de pessoas ao longo de três anos de pandemia, comprimida em poucos meses de ciclos de mutação e seleção. A ômicron, que apareceu pela primeira vez na África do Sul no final de 2021, permanece até hoje como a linhagem dominante, sem que o coronavírus tenha sofrido outra grande virada evolutiva desde então. Os pesquisadores testaram ainda o vírus SARS-CoV-1, causador do surto de SARS no início dos anos 2000, que não se espalhou globalmente. Submetido ao mesmo processo de evolução in vitro com alta pressão seletiva, o SARS-CoV-1 também gerou rapidamente uma variante capaz de se ligar com grande eficiência aos receptores do trato respiratório humano, indicando que a ameaça de novas pandemias com esse perfil é real.

Um dos aspectos mais intrigantes da ômicron sempre foi sua origem genética misteriosa, já que ela acumulava um número de mutações muito superior ao esperado para infecções agudas comuns, nas quais o sistema imune elimina o vírus em dias. A hipótese mais aceita — de que a variante teria evoluído no organismo de pacientes imunossuprimidos, onde a infecção pode durar meses — ganhou respaldo decisivo com os novos achados. Schreiber explicou que, nesses pacientes, o vírus precisa enfrentar repetidamente a atividade imune residual e continuar infectando receptores do trato respiratório por longos períodos. Essas são precisamente as condições de forte pressão seletiva, e nosso estudo mostra que elas são essenciais para o surgimento da ômicron, ressaltou. O achado reforça a urgência de tratar adequadamente doenças imunossupressoras, como a Aids, e de proteger indivíduos vulneráveis durante crises sanitárias globais.

O estudo revelou ainda que o motor principal da evolução do coronavírus foi o aumento da infectividade, e não a capacidade de escapar do sistema imune. Mesmo sem a presença de anticorpos ou defesas imunes nos experimentos, a maioria das mutações características da ômicron apareceu espontaneamente apenas com a seleção pela maior afinidade de ligação ao receptor humano e pela estabilidade estrutural da proteína em altas temperaturas. Os pesquisadores observaram, contudo, que com o avanço da imunidade populacional, o coronavírus passou a acumular também mutações de compromisso, que equilibram maior infectividade com mecanismos de evasão imune. A metodologia criada, segundo os autores, poderá ser aplicada a outros vírus com potencial pandêmico, permitindo isolar suas proteínas e prever como evoluiriam sob diferentes cenários, antes mesmo que variantes perigosas se tornem dominantes.

Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News

Comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário

Escreva seu comentário

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!


Leia mais

Recentes

Recentes