A Polícia Civil de São Paulo ampliou nesta segunda-feira (1º de junho) a investigação sobre desvio de dinheiro público para a produção do filme ‘Dark Horse’, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) que se tornou o epicentro de um escândalo financeiro com ramificações no coração do bolsonarismo. A operação cumpriu mandados de busca e apreensão em quatro empresas suspeitas de emitir notas fiscais frias para justificar gastos milionários do Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama, dona da produtora Go UP Entertainment que assina o longa.
A apuração, revelada pela Folha de S.Paulo, indica que o ICB usou faturas sem lastro real e notas canceladas para mascarar a sangria de recursos oriundos de um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo, gerida por Ricardo Nunes (MDB), aliado histórico da família Bolsonaro. O caso escancara a promiscuidade entre interesses privados, propaganda política e verbas públicas que caracteriza o núcleo bolsonarista.
A investigação identificou que quatro faturas totalizando R$ 8,5 milhões foram emitidas pela Make One Lab, empresa de tecnologia do Alto da Lapa, zona oeste paulistana. Essas faturas, segundo a decisão judicial que autorizou a operação, tinham ‘numeração sequencial, mesma data de emissão e vencimento’, além de valores artificialmente fracionados — o que sugere ‘possível montagem documental para justificar saídas ilícitas de recursos financeiros’.
Outro achado grave envolve R$ 2,4 milhões em notas fiscais que haviam sido canceladas pelas empresas emissoras — a Complexsys Soluções Integradas, de São Paulo, e a JR Feijão, sediada no Ceará — mas ainda assim foram apresentadas na prestação de contas do instituto. A Complexsys, aliás, recebeu R$ 154 mil do gabinete do deputado federal Mário Frias (PL-SP), ex-secretário da Cultura do governo Bolsonaro e coprodutor do filme, entre setembro de 2024 e abril deste ano.
Mário Frias, figura central nessa teia, foi o responsável por catapultar os negócios de Karina Gama, como a própria Folha mostrou em reportagem anterior. A ascensão meteórica da empresária coincidiu com sua entrada no círculo íntimo do ex-secretário bolsonarista, que não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre essa relação promíscua entre política e negócios privados.
A dimensão do superfaturamento fica evidente na comparação de preços: cada ponto de wi-fi contratado por meio do ICB custou R$ 1.800 aos cofres municipais. A Prodam, empresa pública de tecnologia da própria prefeitura, presta serviço idêntico por R$ 230 de implantação por ponto e R$ 306 de manutenção mensal — uma diferença que multiplica o custo em quase oito vezes.
Parte dos pagamentos milionários ao ICB ocorreu sem que o serviço de wi-fi tivesse sido efetivamente prestado, sustenta a autoridade policial. Dos 3.200 pontos contratados, a prefeitura alega que apenas 52 estavam fora do ar nesta segunda-feira em manutenção, mas o inquérito aponta que a gestão Nunes se recusou a fornecer cópia integral do procedimento administrativo e da prestação de contas do contrato.
O prefeito Ricardo Nunes reagiu com o argumento padronizado da direita quando encurralada: alega ‘perseguição política’ e diz que a contratação seguiu ‘princípios da legalidade, transparência e economicidade’. A ironia é cristalina — a investigação é conduzida pela Polícia Civil de São Paulo, subordinada ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado tanto de Nunes quanto da família Bolsonaro.
O filme ‘Dark Horse’ — que em português significa ‘azarão’, numa tentativa de reforçar o mito do perseguido — é o ponto de convergência de um esquema que envolve também o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República. Foi ele quem pediu ajuda a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar a produção — e Vorcaro, posteriormente preso em investigações de fraude bancária, repassou R$ 61 milhões ao projeto cinematográfico.
A Polícia Federal, por sua vez, investiga se os recursos alocados ao filme, gravado no Brasil e produzido também nos Estados Unidos, estavam sendo desviados para cobrir despesas pessoais do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Eduardo, que em 2022 conquistou 741.701 votos (0,71% dos válidos no Brasil), nega ter recebido qualquer valor da produção, enquanto Flávio insiste que o longa tem ‘zero recursos públicos’.
As evidências colhidas até agora contradizem frontalmente essa versão. O ICB operava como fachada de organização social para sugar dinheiro da prefeitura paulistana e irrigar, por meio de notas frias e contratos superfaturados, o projeto cinematográfico que tenta glorificar Jair Bolsonaro — derrotado em 2022 com 58,2 milhões de votos (49,1% dos válidos) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O esquema revela a face mais deletéria do bolsonarismo: a fusão entre militância ideológica, negociatas com dinheiro público e uma rede de lealdades pessoais que começa em gabinetes parlamentares, passa por organizações sociais de fachada e desemboca na tentativa de reescrever a história recente do país com roteiro hollywoodiano. A Make One Lab, a Complexsys, a JR Feijão, a Urban Connect e a Ultra IP formam a cadeia operacional de um rombo que, no frigir dos ovos, servia para lustrar a imagem de um clã político.
Enquanto as investigações avançam nas esferas estadual e federal, o silêncio dos principais envolvidos é ensurdecedor. Karina Gama não se pronunciou, Mário Frias se esquivou, e os Bolsonaro repetem o mantra da perseguição — a mesma litania ouvida nos inquéritos das milícias digitais, das joias sauditas e da trama golpista que culminou no 8 de janeiro de 2023.
A operação desta segunda-feira é mais um capítulo no desmonte da farsa bolsonarista. Ao mirar no coração financeiro da propaganda bolsonarista, a investigação expõe o que sempre esteve à vista: o projeto de poder da extrema direita brasileira se alimenta de dinheiro público desviado, contratos fraudulentos e uma teia de cúmplices que vai de produtoras de fachada a parlamentares dispostos a tudo para manter a máquina funcionando.


Paulo
02/06/2026 - 18h16
Dizem que o filme é muito vagabundo – padrão Bolsonaros – e jamais poderia custar o que foi anunciado. Trata-se, claramente, de valores que seriam (serão) desviados para campanhas políticas e para despesas do dia-a-dia da família…