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Palestinos evacuados de Gaza permanecem presos em hospital de Bagdá com documentos confiscados há mais de dois anos

Mais de duas dezenas de pacientes palestinos evacuados da Faixa de Gaza para Bagdá, capital do Iraque, vivem um calvário silencioso: estão confinados há mais de dois anos dentro de um complexo hospitalar, com documentos de viagem confiscados pelas autoridades iraquianas e sem qualquer perspectiva de retorno para suas famílias. O grupo, formado por 21 […]

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Mulher e menino sentados em sofá, com bandeira do Iraque ao fundo. (Foto: aljazeera.com)

Mais de duas dezenas de pacientes palestinos evacuados da Faixa de Gaza para Bagdá, capital do Iraque, vivem um calvário silencioso: estão confinados há mais de dois anos dentro de um complexo hospitalar, com documentos de viagem confiscados pelas autoridades iraquianas e sem qualquer perspectiva de retorno para suas famílias. O grupo, formado por 21 pacientes gravemente enfermos e 25 acompanhantes, foi transportado em março de 2024 em uma aeronave militar, numa operação coordenada com os governos do Iraque e do Egito, conforme apurou a Al Jazeera em reportagem investigativa.

O que era para ser uma missão humanitária de salvação rapidamente se transformou em uma prisão administrativa. Hanin Muhammad, uma palestina de 40 anos que viajou como acompanhante médica de sua irmã transplantada renal, desabafou sobre o drama familiar. Seus seis filhos estão deslocados em tendas improvisadas entre Rafah e Khan Younis, após as forças israelenses destruírem sua casa. Meus seis filhos estão em Gaza, e estou entrando no meu terceiro ano sem vê-los, afirmou Muhammad, que está confinada no Private Nursing Home Hospital, dentro do complexo da Cidade Médica de Bagdá. Ela contou que depende de terceiros para verificar o estado das crianças, porque os filhos não têm conexão de internet.

A situação documental do grupo é kafkiana. Assim que chegaram do Egito, as autoridades iraquianas apreenderam imediatamente todos os documentos de identificação e viagem. Quando pedimos os papéis, nos disseram que estão retidos pelo Serviço de Inteligência Iraquiano e pelo Ministério das Relações Exteriores, relatou Muhammad. Embora a Embaixada da Palestina em Bagdá tenha emitido novos passaportes, estes documentos são funcionalmente inúteis porque não receberam os carimbos oficiais do governo iraquiano. Sem os carimbos, não é possível viajar para lugar nenhum. O limbo administrativo congelou completamente a vida dos acompanhantes.

Noor Ibrahim, nome fictício de uma jovem que chegou como acompanhante de sua tia com câncer, está presa no Iraque junto com quatro filhos da paciente. Ela está noiva há quatro anos, mas seu noivo e sua família permanecem em Gaza. Saímos com a promessa de que seria uma viagem de tratamento temporária de seis meses, mas já se passaram dois anos, contou. Samah Abdul Moati, de 65 anos, luta contra leucemia, câncer de fígado e uma lesão no braço. Está acompanhada do filho ferido e da nora. Dois de seus filhos foram mortos na guerra, outros dois têm implantes de platina por ferimentos, seu marido enfrenta um câncer em uma unidade de terapia intensiva de Gaza sem ter quem cuide dele, e suas filhas e netos órfãos vivem em tendas.

A privação material e o estresse psicológico marcam o dia a dia do grupo. Abdul Moati denunciou a qualidade da comida fornecida pelo hospital: O hospital traz comida todos os dias, mas ninguém pode comer porque está imprópria para consumo. Estamos sobrevivendo graças à caridade de benfeitores locais. Ela suplicou: Não nos importamos mais com o tratamento – só queremos voltar para nossos filhos. Quando os evacuados protestaram há cinco meses e falaram com a mídia para exigir seu direito de viajar, a administração do hospital retaliou trancando a ala e proibindo-os até de visitar o jardim do hospital.

Muhammad revelou que só foram autorizados a sair depois que jornalistas escreveram sobre sua situação, mas as autoridades continuam os jogando de um departamento a outro sem fornecer respostas diretas. A chefe de relações públicas do Ministério da Saúde iraquiano, Ruba Falah Hassan, classificou o caso como político e afirmou não estar autorizada a falar sobre o assunto. O recém-nomeado porta-voz do governo iraquiano, Haidar Al-Aboudi, limitou-se a dizer que vai analisar a questão. O porta-voz do Ministério da Saúde, Saif Albadr, não atendeu às repetidas chamadas da Al Jazeera.

Os evacuados não têm recursos financeiros para comprar passagens aéreas comerciais mesmo que seus documentos fossem devolvidos, o que significa que precisam desesperadamente de um esforço coordenado por alguma entidade beneficente ou governamental para viabilizar seu retorno ao Egito. Abdul Moati fez um apelo final: Não estou pedindo luxo ou exceção. Estou pedindo um simples direito humano: que minha família não permaneça dividida entre a vida e a morte.

O drama deste grupo é a ponta visível de uma crise humanitária muito mais ampla. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, mais de 20 mil pacientes e feridos aguardam para viajar ao exterior para tratamento médico. Dados oficiais indicam que 1.200 crianças sofrem atualmente de lesões na medula espinhal e paralisia resultantes diretamente de ataques israelenses, e cerca de 4 mil crianças necessitam de tratamento urgente fora do enclave. Apesar da necessidade avassaladora, apenas 154 crianças foram autorizadas a deixar Gaza desde que a passagem de Rafah, a única porta de saída do enclave, foi parcialmente reaberta em fevereiro sob pesadas restrições impostas por Israel. A crise é igualmente devastadora para recém-nascidos: em 2025, mais de 4 mil mulheres tiveram partos prematuros, e pelo menos 4.800 bebês nasceram com baixo peso – o dobro dos índices anteriores à guerra.

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