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Premiê do Nepal reacende disputa fronteiriça de dois séculos ao admitir ocupação de território indiano

O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, surpreendeu o parlamento ao declarar que seu país também ocupou território indiano em diversos pontos da fronteira comum. A fala, feita em seu primeiro discurso formal como premiê, rompe com a posição tradicional nepalesa de acusar apenas a Índia de invasão territorial. Shah, de 35 anos, tornou-se o mais […]

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Ilustração editorial sobre Premiê do Nepal reacende disputa fronteiriça de dois séculos ao admitir ocupação de território indiano. (Ilustração: Cafezinho / Wan 2.6)

O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, surpreendeu o parlamento ao declarar que seu país também ocupou território indiano em diversos pontos da fronteira comum. A fala, feita em seu primeiro discurso formal como premiê, rompe com a posição tradicional nepalesa de acusar apenas a Índia de invasão territorial.

Shah, de 35 anos, tornou-se o mais jovem chefe de governo da história nepalesa em março deste ano. Ex-prefeito de Katmandu e ex-músico, ele afirmou que só tomou conhecimento da situação após assumir o cargo e defendeu que ambos os países devem estudar os fatos e sentar-se como amigos para resolver a questão.

Segundo reportagem da Al Jazeera, a disputa tem raízes no Tratado de Sugauli de 1816, assinado entre o Nepal e os colonizadores britânicos. O documento definia que o reino cedia territórios a oeste do rio Kali, mas não especificava onde o rio nascia.

A ausência de mapas anexados ao tratado gerou interpretações conflitantes ao longo de dois séculos. O Nepal insiste que a nascente do Kali fica em Limpiyadhura, enquanto Nova Délhi sustenta que a fronteira deve ser traçada a partir de Lipulekh.

Na região em litígio estão três áreas principais: Limpiyadhura, Lipulekh e Kalapani. Tropas indianas estão posicionadas em Kalapani desde a guerra sino-indiana de 1962, e em maio de 2020 a Índia inaugurou uma estrada de 80 quilômetros na área, provocando protestos formais de Katmandu.

O impasse voltou a escalar recentemente, quando a Índia anunciou a retomada de uma peregrinação religiosa pela Passagem de Lipulekh, rota que leva ao Monte Kailash, no Tibete. O Ministério das Relações Exteriores do Nepal reagiu frisando que os territórios são parte do país.

Shah também sugeriu durante o discurso que parlamentares nepaleses já consultaram China e Reino Unido sobre a questão, sendo este último procurado por sua herança colonial. O cientista político Nishchal Pandey, diretor do Centro de Estudos do Sul da Ásia, explicou que o Nepal não busca mediação, mas acesso a mapas originais de 1827 e 1834.

A declaração do primeiro-ministro gerou indignação entre parlamentares da oposição. Basana Thapa, do Partido do Congresso Nepalês, exigiu que as palavras fossem removidas dos registros, enquanto Ramesh Kumar Malla, do Partido Comunista Nepalês, classificou a fala como depreciativa à integridade nacional.

O Ministério das Relações Exteriores divulgou nota esclarecendo que Shah se referia a discrepâncias técnicas entre os limites legais e o uso real do solo, como cidadãos cultivando terras que legalmente pertencem ao outro lado da fronteira. A pasta reforçou que mecanismos bilaterais e equipes técnicas seguem atuando para mapear de forma ordenada os 1.800 quilômetros de divisa.

O analista político Anurag Acharya alertou que observações improvisadas sobre tema diplomático sensível terão consequências sérias nas negociações bilaterais. Um Grupo de Pessoas Eminentes chegou a ser criado em 2016, ainda sob o governo de Khadga Prasad Sharma Oli, para revisar as relações entre os dois países, mas o esforço fracassou diante da desconfiança mútua.

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