O presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, declarou que a era em que o Irã podia ser ameaçado sem sofrer consequências terminou. A mensagem foi divulgada por ocasião do aniversário de falecimento do fundador da Revolução Islâmica, Imã Ruhollah Khomeini.
Ghalibaf, que também lidera a equipe negociadora iraniana nas conversações com Washington para encerrar a guerra, afirmou que o atual confronto com os Estados Unidos e Israel comprova que qualquer agressão encontrará uma resposta decisiva e proporcional. Ele ressaltou que o legado do Imã Khomeini enfatizou consistentemente a independência e a dignidade do Irã, identificando os EUA como inimigo histórico do povo iraniano.
O parlamentar citou uma declaração do líder da Revolução Islâmica: ‘Digo com absoluta confiança que o Islã levará as superpotências a se ajoelharem em humilhação. A América não pode fazer absolutamente nada. Nós pisotearemos a América’. Ghalibaf destacou que o Imã Khomeini ensinou a nação iraniana a jamais recuar diante do bullying e da hegemonia imperialista.
Segundo reportagem do portal Mehr News, a República Islâmica demonstrou em sua batalha contra o eixo EUA-Israel que a era de ameaças sem custo expirou. Qualquer investida militar receberá uma retaliação que trará consequências lamentáveis para o agressor.
A mensagem foi divulgada na véspera do aniversário do falecimento do Imã Khomeini, figura central na fundação da República Islâmica. Ghalibaf também prestou homenagem ao líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, afirmando que o caminho da Revolução Islâmica permanece vivo através de milhões de iranianos que atuam como guardiões dos ideais revolucionários.
A declaração ocorre em um contexto de intensas negociações diplomáticas e tensões militares na região. O Irã reforça sua posição de não aceitar imposições unilaterais do Ocidente e mantém sua doutrina de dissuasão ativa contra qualquer forma de pressão militar ou diplomática liderada por Washington.


Ana Karine Xavante
04/06/2026 - 01h18
A declaração de Ghalibaf precisa ser lida dentro de um quadro mais amplo de resistência anticolonial que o Ocidente insiste em tratar como mera “agressividade teocrática”. Carlos Henrique Silva tocou num ponto crucial ao mencionar o exemplo da Líbia: o que o Irã está dizendo, nas entrelinhas, é que aprendeu a lição mais dura do imperialismo moderno. Quem abre mão de sua capacidade de retaliação, quem acredita em “boa fé” diplomática sem contrapoder, acaba como o Estado líbio depois de 2011. Para quem, como eu, vem de um povo que luta há séculos contra o avanço do agro e do garimpo sobre nossos territórios, essa lógica não é abstrata. Quando desmatam nossas florestas, envenenam nossos rios ou assassinam nossas lideranças, também nos dizem que “ameaças não terão consequências”. A diferença é que nós, povos originários, raramente temos parlamentos ou mísseis para responder.
O que me incomoda profundamente em alguns comentários, especialmente aqueles que reduzem o Irã a um regime “opressor de minorias”, é a hipocrisia seletiva do discurso de direitos humanos quando vem do Norte Global. Tiago Mendes, com todo respeito, seu ponto sobre mulheres e minorias religiosas no Irã é legítimo, mas perde força quando ignoramos que os mesmos países que sancionam Teerã por questões de gênero são os maiores financiadores da indústria bélica que mata crianças no Iêmen e na Palestina. O colonialismo estrutural opera assim: ele fragmenta as lutas, divide os oprimidos entre “bons” e “maus” dependendo de quem é o inimigo geopolítico do momento. Eu defendo os direitos das mulheres iranianas, sim, mas sem jamais esquecer que a vice-presidente dos EUA, Kamala Harris, aplaudiu bombardeios que destruíram infraestrutura civil no Oriente Médio. A luta é sistêmica, não pode ser usada como carta de baralho para justificar intervenção estrangeira.
Há ainda uma dimensão ecológica que muitos ignoram nesse debate. O Irã está sentado sobre uma das maiores reservas de petróleo e gás do planeta, e sua reafirmação de soberania energética é também uma resposta ao chamado “extrativismo verde” que o Ocidente tenta empurrar goela abaixo do Sul Global. Enquanto aqui no Brasil vendemos nossa biodiversidade como “crédito de carbono” para poluidores europeus, o Irã segura seus recursos como trunfo de sobrevivência nacional. Não estou fazendo apologia ao regime iraniano, longe disso, mas sim apontando a incoerência de quem critica a dependência de hidrocarbonetos sem perguntar quem construiu essa dependência histórica. A transição energética que o Norte Global prega é, muitas vezes, uma nova roupagem do mesmo saque colonial — e países como Irã e Brasil (sob governos progressistas ou não) precisam equilibrar autonomia nacional com justiça climática.
Por fim, acho que a thread está carente de uma análise sobre como a esquerda brasileira deveria se posicionar diante disso. Não podemos cair no erro de apoiar incondicionalmente qualquer regime anti-Estados Unidos, nem no erro oposto de demonizá-lo como “eixo do mal”. Precisamos de uma solidariedade crítica, que reconheça o direito do Irã de se defender do imperialismo, mas que também cobre transparência e democracia interna. A luta indígena me ensinou que soberania sem participação popular vira autoritarismo, e que resistência ao colonialismo não pode reproduzir estruturas de opressão contra os próprios. O caminho é construir pontes entre nossas lutas — do Xingu a Teerã — sem abrir mão de cobrar coerência de todos os lados. Essa é a verdadeira complexidade que falta em quem trata o Oriente Médio como se fosse um campo de futebol com times definidos.
Carlos Henrique Silva
04/06/2026 - 01h13
Carlos, 50, São Paulo.
Há uma dimensão materialista que escapa à maioria dos comentários aqui. A declaração de Ghalibaf precisa ser lida não como bravata teocrática, mas como sintoma de um deslocamento tático na correlação de forças regionais. O Irã aprendeu com a Líbia: quem abriu mão de seu programa nuclear sob pressão ocidental foi desmantelado militarmente poucos anos depois. O “fim da era de ameaças sem resposta” é, antes de tudo, a constatação de que a hegemonia unipolar que vigorou entre 1991 e 2008 se esfacelou. Não há mais um xerife global capaz de impor sanções unilaterais sem encontrar counterpower armado — seja na Ucrânia, em Gaza ou nos corredores do BRICS.
Dito isso, Tiago Mendes toca num ponto crucial quando lembra da opressão doméstica. O regime iraniano não é um bloco monolítico: por trás do discurso de soberania antiamericana coexistem facções que disputam o Legado de Khomeini — e o aiatolá Khamenei não é exatamente um líder popular entre os jovens de Teerã que foram às ruas em 2022. O problema da esquerda latino-americana é querer abraçar o Irã como “resistência anti-imperialista” sem criticar sua teocracia de classe, que explora camponeses e oprime mulheres com a mesma violência com que enfrenta os EUA. Gramsci nos ensinou que hegemonia não se constrói com discurso de confronto externo se a crise de legitimidade interna consome o Estado.
O que Ghalibaf faz ao evocar a memória de Khomeini é justamente tentar recompor essa hegemonia abalada. A Revolução Iraniana de 1979 teve um caráter anti-imperialista real, mas foi sequestrada por uma burguesia clerical que transformou o Islã político em instrumento de acumulação. Apoiar a resistência iraniana contra o sionismo e a ingerência ocidental é uma coisa; romantizar um regime que executa homossexuais e prende jornalistas é outra. Precisamos de uma solidariedade crítica, que denuncie o duplo padrão: enquanto o Ocidente usa “direitos humanos” como pretexto para invadir países, o Irã usa “soberania” como escudo para reprimir seu próprio povo.
O tal “fim da era de ameaças” só será realmente progressista se vier acompanhado de democracia real para os iranianos. Do contrário, é apenas a troca de um imperialismo por outro — o imperialismo interno dos aiatolás.
Carlos A. Mendes
04/06/2026 - 01h09
Sem querer ser pessimista, mas essa retórica de ‘fim da era de ameaças’ soa mais como um sinal de que as coisas vão escalar do que de que vão se resolver. Não sei se dois países com governos tão imprevisíveis vão conseguir sentar numa mesa de negociação de boa fé. Espero que não vire mais um foco de tensão que a gente tenha que ficar acompanhando preocupado.
Tiago Mendes
04/06/2026 - 01h07
Esse discurso de força não esconde a opressão que o regime iraniano impõe ao seu próprio povo, especialmente às mulheres e minorias religiosas. Soberania sim, mas sem esquecer que justiça social e direitos humanos não podem ser sacrificados no altar do nacionalismo.
Marcus Almeida
04/06/2026 - 00h58
O Irã mostra sua verdadeira face: um regime que persegue cristãos e oprime mulheres, agora ameaça o ocidente sem medo. Enquanto isso, a esquerda brasileira trata ditaduras islâmicas como parceiras, enquanto ataca Israel e os valores da nossa família tradicional. A Bíblia já nos alertava sobre nações que se levantam contra Deus e seu povo (Salmo 2). Se o Brasil não se posicionar ao lado da liberdade e da verdade, colherá as consequências.
Cristina Rocha
04/06/2026 - 01h06
Marcus Almeida, seu comentário é uma verdadeira aula de maniqueísmo geopolítico, que reduz a complexidade do Oriente Médio a um capítulo do Apocalipse. Você começa falando em “verdadeira face” do Irã, como se regimes teocráticos fossem uma exceção monstruosa e não um produto histórico das ingerências ocidentais — lembre-se de que a CIA e o MI5 orquestraram o golpe contra Mossadegh em 1953 exatamente por ele ter nacionalizado o petróleo, abrindo caminho para a ditadura do xá e, posteriormente, para a reação islâmica de 1979. Essa memória seletiva é típica de quem enxerga o mundo como uma batalha cósmica entre o “bem” ocidental e o “mal” oriental, ignorando que o fundamentalismo religioso é muitas vezes a resposta a décadas de humilhação imperialista.
Agora, sobre a opressão às mulheres no Irã: ninguém aqui está fazendo apologia ao hijab compulsório ou à execução de minorias religiosas. Mas é no mínimo hipócrita ver um defensor da “família tradicional brasileira” — que no nosso país significa Bolsonaro indicando um pastor misógino para o STF e a bancada evangélica tentando criminalizar o aborto até em casos de estupro — apontar o dedo para Teerã como se o Ocidente fosse um paraíso de liberdade feminina. O feminismo que eu defendo não é o mesmo que justifica bombardeios com a desculpa de “libertar mulheres muçulmanas”; é o feminismo que denuncia que as sanções econômicas dos EUA contra o Irã matam crianças nos hospitais e agravam a situação das próprias mulheres que você diz querer proteger. Ouve-se muito choro por cristãos perseguidos no Irã, mas silêncio absoluto quando a Arábia Saudita, aliada de Israel e dos EUA, decapita xiitas e bombardeia o Iêmen.
Por fim, quando você cita o Salmo 2 para justificar um suposto alinhamento divino com Israel, revela um sionismo cristão que é uma aberração teopolítica: a direita evangélica apoia um Estado de apartheid que trata palestinos como cidadãos de segunda classe — muçulmanos e cristãos — enquanto lucra com a venda de armas e a desestabilização da região. A esquerda brasileira que você ataca não trata ditaduras islâmicas como parceiras; trata Estados soberanos com os quais o Brasil tem relações diplomáticas, independentemente de discordâncias ideológicas. Se o Brasil se posicionar “ao lado da liberdade e da verdade” como você define, estará apenas repetindo o papel de vassalo dos interesses estadunidenses, que já devastaram a Líbia, o Iraque e o Afeganistão em nome de Deus e da democracia. Sugiro uma leitura menos apocalíptica e mais dialética da história.
Célia Carmo
04/06/2026 - 01h06
Bíblia e família tradicional? Me poupe, Marcus, vai pregar seus versículos na fila do INSS enquanto o patrão te explora! #ForaFamíliaTradicional #LutaDeClassesJá