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Quenianos protestam contra instalação de base dos EUA para quarentena de Ebola

Centenas de quenianos tomaram as ruas da cidade de Nanyuki em protesto contra a construção de uma instalação de quarentena dos Estados Unidos na Base Aérea de Laikipia, no centro do Quênia. A unidade, destinada a isolar cidadãos americanos expostos ao vírus Ebola no exterior, gerou forte indignação no país africano, com manifestantes denunciando a […]

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Centenas de quenianos tomaram as ruas da cidade de Nanyuki em protesto contra a construção de uma instalação de quarentena dos Estados Unidos na Base Aérea de Laikipia, no centro do Quênia. A unidade, destinada a isolar cidadãos americanos expostos ao vírus Ebola no exterior, gerou forte indignação no país africano, com manifestantes denunciando a imposição de um risco sanitário inaceitável.

A revolta, que resultou em confrontos violentos com ao menos duas mortes, foi alimentada pela percepção de que Washington está terceirizando seu problema de saúde pública para uma nação com infraestrutura hospitalar frágil. O Sindicato dos Médicos, Farmacêuticos e Dentistas do Quênia reagiu com veemência, declarando que o grupo não assistirá o Quênia ser tratado como uma colônia de contenção.

Segundo reportagem da Al Jazeera, o plano foi confirmado por funcionários dos EUA, que enviaram cerca de 30 oficiais do Corpo Comissionado do Serviço de Saúde Pública para o local após três semanas de treinamento. O centro, com capacidade inicial para 50 leitos e equipado com unidades de biocontenção e isolamento, será operado em uma base militar que serve às forças quenianas.

A crise ganhou contornos ainda mais alarmantes após a Organização Mundial da Saúde declarar emergência de saúde pública internacional em 17 de maio, devido à rara cepa Bundibugyo do Ebola. Diferentemente da cepa Zaire, mais comum, não há vacinas ou tratamentos aprovados contra essa variante, que estava circulando há semanas na República Democrática do Congo sem detecção adequada.

Até o momento, ao menos 321 pessoas estão infectadas na RDC e 48 morreram, enquanto Uganda registrou uma morte e nove casos confirmados. Apesar de o Quênia nunca ter registrado a doença e não haver casos ativos no país, os quenianos temem que a presença da instalação americana sirva como vetor de importação do vírus.

O presidente do Quênia, William Ruto, defendeu a decisão em entrevista coletiva, afirmando ter dado aval ao pedido do presidente dos EUA, Donald Trump, baseado em uma parceria de décadas. Ruto insistiu que seu governo mobilizou todos os recursos para proteger o país e pediu aos políticos que evitem discursos irresponsáveis.

Contudo, a proposta enfrenta resistência em várias frentes, incluindo dentro do próprio governo americano. O diretor interino do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, Jay Bhattacharya, se opôs ao plano, alertando que uma repatriação para unidades americanas seria mais segura e desejada pelos pacientes. A oposição interna nos EUA revela que a decisão foi ditada mais por interesses políticos de blindagem territorial do que por critérios técnicos de saúde.

Além da contestação popular, o Instituto Katiba e a Sociedade Jurídica do Quênia acionaram a Suprema Corte de Nairóbi para barrar o projeto, citando a falta de consulta pública e os riscos de exposição. Atendendo ao pedido, a corte suspendeu a construção e a chegada de pacientes, estendendo o bloqueio por ao menos três semanas até que o caso seja totalmente analisado.

A resistência popular expõe a dinâmica neocolonial de uma potência que, após cortar drasticamente o financiamento à USAID e à saúde global, busca agora usar o solo africano como escudo sanitário. O medo das ruas de Nanyuki reflete o temor legítimo de repetir tragédias passadas, agravadas pela ausência de um sistema de saúde robusto e pela arrogância imperial que trata o Sul Global como laboratório de contenção de suas próprias mazelas.

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