A Justiça do Rio de Janeiro condenou o comandante da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen, a pagar 200 mil reais por danos morais coletivos. A decisão representa a primeira vitória judicial de João Cândido contra a Força após 116 anos da Revolta da Chibata.
O Ministério Público Federal (MPF) havia pedido 5 milhões de reais em reparação. A sentença responde à carta enviada por Olsen ao Congresso Nacional durante a tramitação do projeto que confere ao marinheiro o título de Herói da Pátria.
Na correspondência, o comandante classificou os revoltosos como seres abjetos e o movimento contra os açoites como reprovável. A reportagem da Carta Capital detalha que Olsen ecoou argumentações contrárias à homenagem.
O episódio revela uma visão anacrônica da história ainda presente em comandos militares. A Marinha do início do século XX aplicava punições desumanas, como os açoites que atingiam majoritariamente marinheiros negros.
Em 1910, o marinheiro Marcelino Menezes recebeu 250 chibatadas em pleno convés. A punição, aplicada pelo comandante João Batista das Neves, serviu de estopim para o levante liderado por João Cândido.
Após a revolta, João Cândido enfrentou perseguição e traição. A anistia prometida pelo governo Hermes da Fonseca foi revogada, e ele foi lançado em cela superlotada com outros 17 companheiros.
Os marinheiros foram submetidos a condições desumanas com água e cal sob pretexto de desinfecção. Quando a cela foi aberta, apenas dois permaneciam vivos, em um dos capítulos mais brutais da história republicana brasileira.
Expulso da Marinha, João Cândido viveu no ostracismo e sobreviveu como pescador. Recebeu uma modesta pensão do governo gaúcho concedida por Leonel Brizola e morreu em 1969.
Sua história foi imortalizada na canção de Aldir Blanc e João Bosco. João Cândido se emocionou ao revisitar o Encouraçado Minas Gerais, que comandou com dignidade durante a revolta.
A condenação de Olsen tem valor simbólico que transcende a quantia fixada. Representa um reconhecimento institucional da injustiça histórica cometida contra os marujos negros.
O valor de 200 mil reais será destinado a projetos de preservação da memória de João Cândido. A decisão fortalece a luta do movimento negro contra o apagamento dessa trajetória.
A resistência de cúpulas militares em aceitar João Cândido como herói revela o racismo estrutural nas instituições. A decisão judicial chega em momento crucial para a proposta legislativa que busca homenageá-lo.
O legado do Almirante Negro pertence ao povo brasileiro e à luta antirracista. Nenhuma nota de repúdio escrita por fardados apagará a verdade sobre os porões que ceifaram vidas por causa da cor da pele.
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