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Justiça condena comandante da Marinha por ofensas racistas contra João Cândido

Ilustração editorial sobre Justiça condena comandante da Marinha por ofensas racistas contra João Cândido. (Ilustração: Cafezinho / Wan 2.6) A Justiça do Rio de Janeiro condenou o comandante da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen, a pagar 200 mil reais por danos morais coletivos. A decisão representa a primeira vitória judicial de João Cândido contra a […]

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Ilustração editorial sobre Justiça condena comandante da Marinha por ofensas racistas contra João Cândido. (Ilustração: Cafezinho / Wan 2.6)

A Justiça do Rio de Janeiro condenou o comandante da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen, a pagar 200 mil reais por danos morais coletivos. A decisão representa a primeira vitória judicial de João Cândido contra a Força após 116 anos da Revolta da Chibata.

O Ministério Público Federal (MPF) havia pedido 5 milhões de reais em reparação. A sentença responde à carta enviada por Olsen ao Congresso Nacional durante a tramitação do projeto que confere ao marinheiro o título de Herói da Pátria.

Na correspondência, o comandante classificou os revoltosos como seres abjetos e o movimento contra os açoites como reprovável. A reportagem da Carta Capital detalha que Olsen ecoou argumentações contrárias à homenagem.

O episódio revela uma visão anacrônica da história ainda presente em comandos militares. A Marinha do início do século XX aplicava punições desumanas, como os açoites que atingiam majoritariamente marinheiros negros.

Em 1910, o marinheiro Marcelino Menezes recebeu 250 chibatadas em pleno convés. A punição, aplicada pelo comandante João Batista das Neves, serviu de estopim para o levante liderado por João Cândido.

Após a revolta, João Cândido enfrentou perseguição e traição. A anistia prometida pelo governo Hermes da Fonseca foi revogada, e ele foi lançado em cela superlotada com outros 17 companheiros.

Os marinheiros foram submetidos a condições desumanas com água e cal sob pretexto de desinfecção. Quando a cela foi aberta, apenas dois permaneciam vivos, em um dos capítulos mais brutais da história republicana brasileira.

Expulso da Marinha, João Cândido viveu no ostracismo e sobreviveu como pescador. Recebeu uma modesta pensão do governo gaúcho concedida por Leonel Brizola e morreu em 1969.

Sua história foi imortalizada na canção de Aldir Blanc e João Bosco. João Cândido se emocionou ao revisitar o Encouraçado Minas Gerais, que comandou com dignidade durante a revolta.

A condenação de Olsen tem valor simbólico que transcende a quantia fixada. Representa um reconhecimento institucional da injustiça histórica cometida contra os marujos negros.

O valor de 200 mil reais será destinado a projetos de preservação da memória de João Cândido. A decisão fortalece a luta do movimento negro contra o apagamento dessa trajetória.

A resistência de cúpulas militares em aceitar João Cândido como herói revela o racismo estrutural nas instituições. A decisão judicial chega em momento crucial para a proposta legislativa que busca homenageá-lo.

O legado do Almirante Negro pertence ao povo brasileiro e à luta antirracista. Nenhuma nota de repúdio escrita por fardados apagará a verdade sobre os porões que ceifaram vidas por causa da cor da pele.


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