O antigo sonho de transmitir eletricidade sem qualquer perda de energia acaba de ganhar um capítulo decisivo nos confins da física da matéria condensada. Uma equipe internacional de cientistas conseguiu, pela primeira vez, empregar espectroscopia de ressonância magnética nuclear para investigar os segredos atômicos dos superhidretos de lantânio, materiais que já detêm o recorde mundial de temperatura crítica de transição supercondutora.
O feito extraordinário foi conduzido por pesquisadores do Centro Helmholtz Dresden-Rossendorf (HZDR), na Alemanha, em colaboração estreita com especialistas do Centro de Pesquisa Avançada em Ciência e Tecnologia de Alta Pressão (HPSTAR), em Pequim. Durante décadas, a comunidade científica perseguiu a supercondutividade em temperaturas próximas à ambiente, e esses compostos ricos em hidrogênio emergiram como os candidatos mais promissores já sintetizados em laboratório.
Supercondutores são materiais que, abaixo de uma temperatura crítica específica, perdem completamente a resistência elétrica e permitem o fluxo de corrente sem dissipação alguma. Nos exemplares convencionais, essa transição ocorre por volta de 138 Kelvin, ou 135 graus Celsius negativos, exigindo sistemas de resfriamento tão caros quanto complexos para qualquer aplicação prática.
Já os superhidretos operam em outro patamar da realidade física: são compostos onde metais como o lantânio ficam aprisionados dentro de uma rede cristalina densamente empacotada de átomos de hidrogênio. Sob pressões colossais, semelhantes àquelas encontradas no interior de planetas gigantes, essas estruturas desenvolvem propriedades eletrônicas exóticas e já exibiram sinais de supercondutividade em temperaturas que se aproximam da ambiente, desafiando os limites da engenharia de materiais.
Para atingir tais condições extremas, os cientistas comprimem as amostras em células de bigorna de diamante, espremendo-as entre duas gemas a pressões superiores a um milhão de atmosferas. O obstáculo técnico, contudo, reside no tamanho ínfimo das amostras, que exige uma precisão experimental próxima do milagre para qualquer análise espectroscópica confiável.
A chave para vencer essa barreira veio na forma de lentes de Lenz, minúsculas estruturas condutoras em formato de anel que atuam como superlentes magnéticas em microescala. Esses dispositivos concentram e amplificam os campos de radiofrequência necessários para a espectroscopia de ressonância magnética nuclear diretamente no volume da amostra, tornando viáveis medições que antes pertenciam ao reino da ficção científica.
O Dr. Florian Bärtl, pesquisador do Laboratório de Alto Campo Magnético de Dresden (HLD) no HZDR, explicou a delicadeza do processo com uma imagem eloquente. ‘Tivemos que focar os campos de alta frequência exatamente onde a amostra está localizada entre as bigornas de diamante, em uma área de apenas algumas dezenas de micrômetros, menor que o diâmetro de um fio de cabelo humano’, detalhou Bärtl em comunicado institucional.
Com a utilização das lentes de Lenz, a equipe conseguiu amplificar o sinal de radiofrequência a tal ponto que, pela primeira vez na história, dados significativos de ressonância magnética nuclear tornaram-se acessíveis para superhidretos. As medições fornecem informações diretas sobre o arranjo dos átomos na escala mais íntima, ajudando os pesquisadores a compreender com clareza inédita os mecanismos quânticos que governam esses materiais recordistas.
O mesmo grupo de cientistas já havia estudado esses materiais utilizando ímãs de campo pulsado no HLD para medir a resistência elétrica sob condições extremas. Esses campos magnéticos funcionam como um autêntico teste de estresse para supercondutores, revelando as forças máximas de campo nas quais o estado supercondutor consegue permanecer estável sem colapsar.
Uma imagem completa dessa classe de materiais só emerge quando ambos os métodos são empregados em conjunto: os estudos de ressonância magnética nuclear sob alta pressão e as medições de resistência nos campos magnéticos mais intensos já produzidos. Essa combinação sinérgica representa um salto metodológico que reposiciona o entendimento científico sobre a supercondutividade em hidretos ricos em hidrogênio.
A colaboração com os especialistas em alta pressão do HPSTAR, em Pequim, foi descrita como absolutamente crucial para o sucesso do projeto. O Dr. Dmitrii Semenok, pesquisador do HPSTAR e autor principal dos estudos, afirmou que as instalações de alto campo disponíveis no HLD e a expertise em instrumentação de alta frequência oferecem condições ideais para experimentos dessa natureza, como reportagem do portal SciTechDaily destacou em sua análise dos avanços recentes.
Os resultados desse esforço transcontinental foram formalizados em dois artigos científicos de altíssimo impacto: o primeiro, assinado por Dmitrii V. Semenok, Florian Bärtl, Di Zhou, Toni Helm, Sven Luther, Joachim Wosnitza, Ivan A. Troyan, Viktor V. Struzhkin e Hannes Kühne, foi publicado na revista Advanced Science; o segundo, com autoria de Semenok, Troyan, Zhou, Andrei Vladimirovich Sadakov, Kirill Sergeevich Pervakov e outros colaboradores, saiu na Advanced Functional Materials. Ambas as publicações detalham as descobertas que estão redesenhando o mapa da supercondutividade de alta temperatura.
No horizonte de longo prazo, os pesquisadores pretendem decifrar os mecanismos físicos fundamentais por trás da supercondutividade em materiais ricos em hidrogênio, um conhecimento que poderá guiar o desenvolvimento de novas substâncias para tecnologias energeticamente mais eficientes. A promessa de transmissão elétrica sem perdas, computação quântica estável e sistemas de levitação magnética de baixo custo depende diretamente da capacidade humana de domesticar esses fenômenos quânticos que, por enquanto, só se manifestam sob as condições mais violentas já criadas em laboratório.
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