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Hormônio existente pode reverter dano nervoso ‘irreversível’ em minicérebros humanos, revela estudo de Cambridge

Neurônios em atividade, representando o sistema nervoso humano. (Foto: sciencedaily.com) Cientistas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, criaram sistemas diminutos de cérebro e medula espinhal cultivados em laboratório que imitam o tráfego de sinais motores no sistema nervoso humano. A descoberta abre a possibilidade de reverter danos nervosos antes considerados irreversíveis. Os neurônios formam […]

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Neurônios em atividade, representando o sistema nervoso humano. (Foto: sciencedaily.com)

Cientistas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, criaram sistemas diminutos de cérebro e medula espinhal cultivados em laboratório que imitam o tráfego de sinais motores no sistema nervoso humano. A descoberta abre a possibilidade de reverter danos nervosos antes considerados irreversíveis.

Os neurônios formam redes complexas de comunicação por meio de axônios, fibras longas que transmitem mensagens e comandam os músculos. Com o amadurecimento, no entanto, o sistema nervoso central perde quase totalmente a capacidade de regenerar esses axônios, condenando lesões cerebrais ou medulares a sequelas permanentes como a paralisia.

Em 2021, o Dr. András Lakatos, do Departamento de Neurociências Clínicas da Universidade de Cambridge, e sua equipe já haviam desenvolvido minicérebros a partir de células-tronco de pacientes, organoides do tamanho de uma ervilha que mimetizam o córtex cerebral. Agora, em novo estudo divulgado na revista Cell Reports, os pesquisadores ampliaram o modelo, construindo uma versão conectada de cérebro e medula espinhal humanos.

Os organoides foram mantidos fisicamente separados, mas os axônios do tecido cerebral cresceram através da lacuna e se ligaram ao tecido medular, formando circuitos funcionais. Esses circuitos chegaram a disparar contrações em minúsculos aglomerados de células musculares, comprovando sua vitalidade.

O experimento perdurou por mais de um ano e revelou que, até aproximadamente o dia 150 de desenvolvimento — equivalente à metade da gestação —, os axônios danificados ainda conseguiam se regenerar. A partir desse ponto, os neurônios exibiram uma queda brusca na capacidade de regeneração, conforme observou George Gibbons, primeiro autor do trabalho.

A análise da atividade gênica expôs uma rede de genes que atua como interruptor biológico, limitando o crescimento axonal à medida que os neurônios amadurecem e formam sinapses. Ao bloquear reguladores-chave dessa rede, os cientistas conseguiram reativar o poder de crescimento dos axônios, restaurando uma plasticidade que se julgava perdida.

Os pesquisadores vasculharam um banco de compostos farmacológicos e identificaram o linestrenol, um hormônio já aprovado para distúrbios menstruais e uso contraceptivo, como forte candidato. Testado em neurônios lesionados, o fármaco ampliou de forma expressiva a regeneração das fibras nervosas.

O Dr. Lakatos ressaltou que tecidos cicatriciais e inflamação também dificultam o reparo, mas compreender os mecanismos intrínsecos dos neurônios é um passo decisivo. “Nosso modelo indica que o bloqueio da regeneração ocorre durante o desenvolvimento e ainda pode ser revertido depois desse ponto”, afirmou, embora admita que o linestrenol, isoladamente, talvez não seja a resposta definitiva para reparos medulares.

A tecnologia de organoides derivados de células-tronco humanas ganha relevo porque reproduz a biologia humana com fidelidade muito superior à dos modelos animais. Em Cambridge, os mesmos sistemas já são empregados para tentar reparar fígados danificados, investigar a doença de Crohn em crianças e estudar os estágios iniciais da gravidez, além de reduzir o uso de cobaias.

A pesquisa contou com financiamento do Conselho de Pesquisa Médica do UK Research and Innovation e da Spinal Research, reforçando o esforço britânico em medicina regenerativa. Os resultados acendem a esperança de que, no futuro, lesões neurológicas hoje incuráveis possam ser efetivamente tratadas.


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