Ao substituir catenárias pela alimentação central no nível do chão, o Veículo Leve sobre Trilhos do DF compatibiliza patrimônio histórico e mobilidade; projeto prevê 39 trens, R$ 3,9 bilhões em investimento e concessão de 30 anos.
<p>A modernidade tem corpo, peso e direção. Exige engenharia que dialogue com o chão que pisa.</p>
<p>O projeto do Veículo Leve sobre Trilhos de Brasília acaba de superar o mais simbólico dos entraves que rondam intervenções urbanas na capital tombada. Ao descartar a tradicional rede aérea de fios e adotar o sistema de Alimentação pelo Solo, o Governo do Distrito Federal destravou a ligação entre a Avenida W3 e o Aeroporto Internacional, conciliando patrimônio histórico com mobilidade de alta capacidade.</p>
<p>A virada veio após o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional rejeitar o traçado original, que previa postes e catenárias suspensas sobre os trilhos. O Iphan concluiu que hastes metálicas e cabos aéreos feririam o conjunto urbanístico de Lucio Costa, projetado para preservar a escala horizontal do Plano Piloto, e ainda forçariam a remoção de vegetação consolidada por décadas.</p>
<p>A solução adotada elimina a poluição visual e a intrusão paisagística. Em vez de fios suspensos, a energia chega aos trens por um trilho central de alimentação, posicionado no nível do solo entre os dois trilhos de rodagem. Segmentado em blocos, esse trilho energiza apenas o trecho exato abaixo do veículo em movimento, suprimindo qualquer risco de contato acidental com pedestres ou automóveis que cruzem a via.</p>
<p>Trata-se da mesma tecnologia APS que equipa o VLT carioca desde 2016 e já demonstrou segurança e resiliência na operação diária do Rio de Janeiro. Brasília não precisou inventar a roda: aproveitou uma ferramenta madura, testada e aprovada, para resolver um impasse que parecia crônico. O ganho é duplo: preserva a integridade visual da cidade e acelera a implantação de um corredor de transporte de massa onde antes só havia negociação emperrada.</p>
<p>Segundo o secretário de Transporte e Mobilidade, Zeno Gonçalves, o projeto reformulado prevê 39 trens operando em duas frentes complementares. O eixo principal percorre os 16 quilômetros do canteiro central da W3, com 24 estações e 33 composições dedicadas. Já o ramal aeroportuário parte do futuro Terminal da Asa Sul e avança por 6 quilômetros até o Aeroporto, com 4 paradas e 6 trens. O terminal, peça central da integração, fará a conexão física e tarifária entre os dois serviços, otimizando os transbordos.</p>
<p>Cada trem terá 45 metros de comprimento, dividido em sete módulos articulados sobre bogies que vencem curvas fechadas e as variações do cerrado. A capacidade varia de 400 a 560 passageiros por composição, com piso 100% baixo e integral, sem degraus nem lacunas entre plataforma e veículo. Embarcar será tão simples quanto caminhar sobre uma calçada: acessibilidade universal de fato, não de discurso.</p>
O investimento total está estimado em R$ 3,9 bilhões, valor referencial que passará por atualização durante a análise do Tribunal de Contas do Distrito Federal. A modelagem financeira apoia-se em concessão de 30 anos à iniciativa privada, com a projetista recebendo pagamento apenas após a concretização do contrato, como detalhou reportagem do Metrópoles.
<p>A escolha do VLT como modo estruturante na W3 responde a uma lógica implacável de engenharia urbana. Cada composição substitui de oito a doze ônibus articulados no corredor, cortando emissões locais e reduzindo o consumo de diesel. O piso plano contínuo elimina os vãos e escadas que infernizam sistemas metroviários pesados, onde cada segundo perdido no embarque se acumula em atrasos. O VLT de Brasília nasce para oferecer headways apertados e fluxo contínuo.</p>
O contraste com a anemia histórica da expansão ferroviária nacional é brutal. Desde a Copa de 2014, o Brasil acrescentou apenas 113 quilômetros à sua malha de trens urbanos, metrôs e VLTs, uma expansão de 11 por cento, segundo levantamento do Mobilize. Hoje toda a rede de passageiros soma míseros 1.116 quilômetros, extensão comparável à viagem entre Rio e Brasília. Só o metrô de Xangai já ultrapassou os 802 quilômetros.
<p>Enquanto Brasília avança na W3 e estuda outro ramal entre Ceilândia e Taguatinga, outras capitais empacam. Recife, Porto Alegre e Belo Horizonte praticamente não expandiram suas redes desde 2014. Salvador desativou o Trem do Subúrbio que serviu a população por mais de um século, e Fortaleza mantém seu VLT de 13 quilômetros em operação assistida sem cobrança de passagem há uma década.</p>
<p>O projeto brasiliense cola-se à retomada do investimento federal. O Novo PAC reserva R$ 94,2 bilhões para ferrovias até 2026, e a criação da Secretaria Nacional de Transporte Ferroviário em 2023 sinaliza que o modal sobre trilhos voltou à agenda de Estado. Como afirmou Joubert Flores, presidente do conselho da Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos, a parceria público-privada é uma ferramenta legítima quando o governo não pode fazer sozinho, desde que o investidor receba o recado de que a política será perene, não apenas de governo.</p>
<p>O VLT da W3 é mais que um corredor. É a prova de que patrimônio histórico e técnica pesada coexistem quando a engenharia é tratada como prioridade, e não como promessa. A modernidade, afinal, tem lastro de verdade, a bitola de 1.435 milímetros e a energia pulsando sob o solo do cerrado.</p>


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