Uma mosca parasita conhecida como ‘mosca do veadeiro’ (deer ked) sacrifica parte da visão após encontrar um hospedeiro e se fixar para se alimentar de sangue, revela um novo estudo. A pesquisa, publicada no Journal of Experimental Biology, mostra como a evolução ajusta os sistemas sensoriais de forma drástica quando um inseto abandona a vida aérea para se tornar um ectoparasita.
Cientistas das universidades de Aberystwyth (Reino Unido) e de Florença (Itália) analisaram os olhos dessas moscas em diferentes fases da vida. Eles constataram, conforme reportagem do portal phys.org, que a atividade dos genes da visão cai pela metade após a perda das asas.
As moscas do veadeiro, que picam mamíferos e ocasionalmente humanos, usam os olhos e o voo para localizar um hospedeiro. Uma vez pousadas, perdem permanentemente as asas e passam o resto da vida rastejando pelo pelo do animal.
O trabalho, liderado por Roger Santer, indica que a mosca não perde completamente a visão, mas reduz a sensibilidade visual para economizar energia. Segundo o pesquisador, ‘a visão desempenha um papel vital no comportamento animal, mas também é energeticamente cara, e a evolução favorece sistemas sensoriais eficientemente ajustados ao estilo de vida’.
A mosca do veadeiro transita entre dois estilos de vida radicalmente distintos, fazendo a transição completa de um caçador aéreo para um parasita rastejante. Enquanto algumas moscas hematófagas dependem muito da visão para caçar, essa espécie realiza a troca de forma abrupta e definitiva.
Para medir a mudança, os pesquisadores examinaram a atividade dos genes opsina, responsáveis pela sensibilidade à luz, em moscas aladas e em indivíduos sem asas. “Descobrimos que o sistema visual de uma mosca alada é muito semelhante ao da mosca tsé-tsé, famosa por caçar mamíferos na África”, afirmou Santer.
Após a perda das asas, no entanto, a atividade dos genes opsina foi reduzida a cerca da metade do nível anterior. Os cientistas acreditam que essa regulação libere recursos que podem ser redirecionados para a digestão, a reprodução e outras funções essenciais à vida parasitária.
O estudo também revela que o sacrifício da visão não é um desligamento completo, mas um ajuste fino. A mosca mantém alguma capacidade visual, o que pode ser útil para navegar no pelo do hospedeiro ou detectar movimentos próximos.
Compreender como moscas que picam usam seus sentidos pode ajudar a desenvolver estratégias mais eficientes de monitoramento e manejo. A pesquisa reforça a importância de estudar a evolução dos sistemas sensoriais sob a pressão de diferentes estilos de vida.
Os ‘deer keds’ estão distribuídos pela Europa, Ásia, África e Américas e, embora prefiram veados, podem atacar humanos, causando picadas dolorosas. A nova compreensão sobre como essas moscas ajustam seus sentidos pode contribuir para métodos que interrompam seu ciclo de vida.
O que parece uma perda, a cegueira parcial, revela-se uma adaptação evolutiva que maximiza a sobrevivência em um ambiente onde a visão aguçada já não é crucial. A natureza segue oferecendo lições de eficiência que a ciência apenas começa a decifrar.
? Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho
Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.


Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!