A inadimplência no agronegócio brasileiro encerrou 2025 em 8,2%, ampliando os sinais de deterioração financeira em um dos setores mais importantes da economia nacional.
O levantamento da Serasa Experian mostra que o índice subiu um ponto percentual em relação ao mesmo período do ano anterior, consolidando uma trajetória de alta observada ao longo dos últimos trimestres. O indicador considera dívidas vencidas há mais de 180 dias de pessoas físicas da população rural com empresas ligadas ao agronegócio.
O dado chama atenção porque o agro atravessa um momento de forte pressão sobre custos, crédito e fluxo de caixa. Fertilizantes mais caros, combustíveis pressionados por tensões internacionais, juros elevados e preços voláteis das commodities reduziram margens e aumentaram a dificuldade de pagamento para parte dos produtores.
Segundo Marcelo Pimenta, head de agronegócios da Serasa Experian, o setor continua enfrentando um ambiente financeiro desafiador. Em nota divulgada pela empresa, ele afirmou que produtores ainda operam com margens apertadas, custos elevados e acesso mais restrito ao crédito.
O problema não está apenas na quantidade de inadimplentes, mas no tamanho das dívidas.
Levantamentos da Serasa mostram que a maior parte da inadimplência rural está concentrada em operações com instituições financeiras. As dívidas ligadas a bancos alcançaram cerca de 7,2% a 7,3%, enquanto os débitos diretamente com empresas do próprio agronegócio permanecem próximos de zero.
Isso significa que o principal foco de risco está no sistema de crédito rural.
Mesmo quando o percentual de inadimplência parece relativamente controlado, os valores envolvidos costumam ser altos. A Serasa identificou dívida média superior a R$ 100 mil entre produtores inadimplentes junto a instituições financeiras. Em operações diretamente ligadas ao setor agro, a média ultrapassa R$ 130 mil.
O cenário também afeta os financiamentos.
Dados obtidos pela Serasa Experian mostram que as concessões de crédito rural e agroindustrial para produtores pessoa física somaram R$ 179 bilhões em 2025, queda de 17% em relação ao ano anterior. Na prática, isso representa uma retração de aproximadamente R$ 36,8 bilhões no volume liberado ao campo.
O movimento cria um círculo de pressão. Com mais inadimplência, bancos ficam mais cautelosos. Com crédito mais restrito, produtores enfrentam mais dificuldade para financiar safras, renegociar dívidas e manter investimentos.
Os números mostram que o problema atinge diferentes perfis do agronegócio.
Segundo a Serasa, produtores sem informação formal de registro rural registraram os maiores índices de inadimplência, com taxas próximas de 10%. Grandes proprietários também aparecem em patamar elevado, com cerca de 9,8%, enquanto produtores médios e pequenos registram índices entre 7,8% e 8,3%.
Isso desmonta a ideia de que a crise financeira estaria concentrada apenas nos pequenos produtores. A pressão aparece em praticamente todas as faixas do setor, embora por razões diferentes.
Outro dado que surpreende é o desempenho do Sul.
Mesmo após enfrentar secas e enchentes nos últimos anos, o Rio Grande do Sul apresentou uma das menores taxas de inadimplência do país, em torno de 5,3%, seguido por Paraná e Santa Catarina. Especialistas atribuem esse resultado à forte presença de cooperativas, instrumentos de seguro rural e programas de renegociação de dívidas.
Enquanto isso, cresce a preocupação com o avanço das recuperações judiciais no campo.
Relatórios recentes mostram aumento expressivo de pedidos de recuperação por produtores rurais e empresas ligadas ao agronegócio. Estados como Mato Grosso, Goiás, Paraná e Mato Grosso do Sul concentram parte importante desses processos, refletindo a dificuldade financeira enfrentada em diversas regiões agrícolas.
O agro continua sendo um dos pilares da economia brasileira, responsável por parcela relevante das exportações, da geração de divisas e da atividade econômica nacional.
Mas os novos números da Serasa mostram que o setor entrou em 2026 carregando um problema crescente: a combinação de crédito mais escasso, custos elevados e aumento da inadimplência.
A preocupação agora é com a próxima safra.
Se juros altos, restrição de crédito e custos de produção continuarem pressionando o caixa dos produtores, parte do mercado financeiro já teme uma deterioração ainda maior ao longo de 2026.
O índice de 8,2% não representa um colapso do agronegócio brasileiro. Mas funciona como um alerta importante: até mesmo um dos setores mais fortes da economia começa a sentir os efeitos de um ambiente financeiro mais duro, crédito seletivo e margens cada vez mais apertadas.


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