A operação da Polícia Civil de São Paulo na produtora do filme ‘Dark Horse’ é mais do que uma investigação sobre um contrato de Wi-Fi. Ela escancara a complexa engenharia financeira que sustenta a máquina política bolsonarista, conectando uma empresa cinematográfica, um instituto social e a gestão municipal de Ricardo Nunes (MDB).
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a ação ocorreu nesta segunda-feira (1º) e mirou endereços ligados à Go UP Entertainment, produtora do longa sobre Jair Bolsonaro, e à Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. O inquérito apura se recursos de um contrato de R$ 108 milhões, firmado entre o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a prefeitura para fornecimento de Wi-Fi gratuito, foram desviados para a produção do filme.
A empresa de Karina Ferreira da Gama, presidente do ICB e dona da produtora, é o epicentro da suspeita. Os investigadores apontam ‘consistentes suspeitas de confusão patrimonial’ e possível financiamento cruzado ilícito entre o instituto e a Go UP, com verba pública municipal irrigando o longa bolsonarista.
O superfaturamento é documentado e estarrecedor. Cada ponto de Wi-Fi viabilizado pelo ICB custou R$ 1.800, enquanto a Prodam, empresa pública municipal, presta serviço idêntico por R$ 230, conforme a decisão judicial que autorizou as buscas.
Faturas frias e notas canceladas engrossam o esquema. Quatro faturas de R$ 8,5 milhões, emitidas pela Make One Lab, não tinham notas fiscais correspondentes, enquanto outras duas empresas, Complexsys e JR Feijão, tiveram notas canceladas no mesmo dia da emissão, mas ainda assim foram usadas na prestação de contas do contrato.
O escândalo não se limita à gestão Ricardo Nunes. Ele se entrelaça diretamente com a cúpula bolsonarista, envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, que pediu recursos para financiar o filme, como revelou o Intercept Brasil, acionando Daniel Vorcaro, do Banco Master, que repassou R$ 61 milhões ao projeto.
A Polícia Federal, por sua vez, investiga se parte desse dinheiro foi desviada para bancar gastos do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos. A investigação paulista agora revela outro possível duto de financiamento, usando um contrato público municipal como fachada.
O envolvimento do deputado federal Mario Frias (PL-SP), ex-secretário da Cultura no governo Bolsonaro e também produtor do filme, adiciona outra camada ao caso. A empresa Complexsys, apontada no inquérito por notas canceladas, recebeu R$ 154 mil do gabinete do parlamentar entre 2024 e este ano, segundo dados da Câmara.
A defesa de Karina nega irregularidades e afirma que a contratação foi regular, sem vínculo com ‘Dark Horse’. Contudo, os indícios de montagem documental, os valores artificialmente fracionados e a coincidência de datas sugerem o oposto.
O prefeito Ricardo Nunes, aliado de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e da família Bolsonaro, fala em perseguição política. A investigação, porém, partiu de requisição do Ministério Público e foi autorizada pelo Tribunal de Justiça, desmontando a tese de interferência política.
O caso vai além da propaganda eleitoral gratuita em forma de cinema. Ele expõe um modus operandi de financiamento paralelo que une interesses empresariais, recursos públicos e a máquina política bolsonarista, com o senador Flávio Bolsonaro no centro da trama que pode definir os rumos jurídicos e eleitorais de 2026.


Rick Ancap
02/06/2026 - 10h05
Imposto é roubo, estado é máfia, e essa “engenharia financeira” é só mais um assalto com cara de contrato público.
Pedro Almeida
02/06/2026 - 10h08
Rick, você ecoa Proudhon quando diz que a propriedade é roubo, mas tropeça no próprio argumento: o problema não é o Estado em si, é o uso que a fração burguesa da sociedade faz dele para transferir recursos públicos ao capital privado, como mostrou Marx ao analisar o orçamento como expressão da luta de classes.
Cláudio Ribeiro
02/06/2026 - 10h13
Rick, sua crítica ao Estado como “máfia” repete o gesto liberal clássico de denunciar o Leviatã sem jamais perguntar quem financia os grilhões — Foucault já mostrava, há décadas, que o poder não se dissolve quando se encolhe o Estado, apenas se desloca para as malhas do capital privado que você ingenuamente defende.