O Sol pode estar muito mais ativo do que os astrônomos imaginavam. Um estudo publicado na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society mostra que as ondas sonoras que percorrem o interior da estrela indicam uma atividade magnética muito superior àquela observada na superfície.
A pesquisa, liderada pelo professor Bill Chaplin, da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, utilizou a heliossismologia, técnica que estuda as vibrações sonoras internas do Sol. Essas ondas funcionam de maneira semelhante às ondas sísmicas usadas para investigar a estrutura interna da Terra.
A descoberta foi possível graças à análise de quase quatro décadas de dados coletados pela rede BiSON (Birmingham Solar Oscillations Network), composta por seis telescópios distribuídos em diferentes partes do planeta. Juntos, esses instrumentos registraram quatro ciclos solares completos entre 1987 e 2025.
Os cientistas dividiram as ondas em diferentes frequências para mapear regiões distintas do interior solar. As ondas de baixa frequência alcançam camadas mais profundas, enquanto as de alta frequência fornecem informações sobre áreas próximas à superfície.
A primeira discrepância apareceu nas ondas de baixa frequência, que desde meados dos anos 2000 deixaram de acompanhar a evolução observada na contagem de manchas solares. Embora essa divergência já tivesse sido notada anteriormente, ainda despertava dúvidas entre os especialistas. A grande surpresa, porém, veio das ondas de alta frequência, que analisam uma camada localizada a cerca de 965 quilômetros abaixo da superfície solar.
Os resultados mostraram que, durante os períodos de maior atividade do Ciclo Solar 25, o interior do Sol apresentou sinais comparáveis aos ciclos mais intensos registrados entre o fim dos anos 1980 e o início dos anos 1990. Na prática, os dados indicam que o Sol parece muito mais ativo internamente do que sugerem as manchas solares visíveis.
O Ciclo Solar 25 havia sido previsto como relativamente moderado, e a contagem de manchas confirmava essa expectativa com números inferiores aos picos históricos. Segundo reportagem do Olhar Digital, esta é a primeira vez que um padrão desse tipo é identificado de forma tão clara. A descoberta só foi possível graças ao longo histórico de observações acumulado pela rede BiSON.
Os resultados também sugerem uma mudança na distribuição da atividade magnética dentro da estrela. As evidências apontam que os processos associados aos ciclos solares estão se concentrando cada vez mais perto da superfície, diferentemente do que ocorria no passado.
A pesquisadora Sarbani Basu, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, afirmou que essa tendência não pode ser explicada apenas por uma redução na intensidade dos campos magnéticos. Para Basu, os dados sugerem que o Sol está alterando a forma como armazena e distribui sua atividade magnética em seu interior.
A descoberta tem implicações práticas importantes para as previsões do chamado clima espacial. Grandes erupções solares lançam partículas carregadas em direção à Terra e podem afetar satélites, sistemas de comunicação, GPS e até redes elétricas. Compreender melhor o que acontece abaixo da superfície solar pode tornar esses alertas mais precisos e ajudar na proteção de infraestruturas críticas.
A equipe agora pretende continuar acompanhando os próximos ciclos solares para descobrir se essa mudança representa uma fase temporária ou uma transformação duradoura.


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