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Operação contra produtora de ‘Dark Horse’ expõe racha entre bolsonaristas e governo Tarcísio

A operação da Polícia Civil de São Paulo contra a produtora Karina Gama, responsável pelo filme ‘Dark Horse’ sobre Jair Bolsonaro, escancara um racha crescente no campo bolsonarista. A ação, que partiu de um órgão subordinado ao governador Tarcísio de Freitas, aliado histórico do ex-presidente, enfraquece o discurso de perseguição política que a direita tenta […]

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A operação da Polícia Civil de São Paulo contra a produtora Karina Gama, responsável pelo filme ‘Dark Horse’ sobre Jair Bolsonaro, escancara um racha crescente no campo bolsonarista. A ação, que partiu de um órgão subordinado ao governador Tarcísio de Freitas, aliado histórico do ex-presidente, enfraquece o discurso de perseguição política que a direita tenta emplacar como narrativa eleitoral.

A investigação, deflagrada nesta segunda-feira (1º), apura suspeitas de fraude em um contrato de R$ 108 milhões entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil, ONG ligada a Karina. Os policiais também examinam se recursos do acordo para instalação de pontos de Wi-Fi público foram desviados para financiar indiretamente a produção do longa-metragem sobre o ex-presidente.

Segundo a colunista Bela Megale, em reportagem publicada no GLOBO, integrantes do governo Tarcísio foram procurados por bolsonaristas indignados logo após a operação. A cobrança evidencia o mal-estar entre aliados que esperavam blindagem política por parte do Palácio dos Bandeirantes, e não uma investigação da própria polícia estadual.

O deputado federal Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente e candidato ao Planalto, reagiu publicamente com uma declaração ambígua e incômoda para o campo aliado. Ele afirmou esperar que a ação não seja ‘uma perseguição estatal por parte de alguns setores para influenciar as eleições’, lançando dúvidas diretamente sobre a gestão Tarcísio.

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, do MDB, saiu em defesa de Karina e recorreu ao argumento de perseguição política, tentando vitimizar a produtora. O deputado federal Mario Frias, do PL de São Paulo, principal figura pública associada ao projeto do filme, também declarou que ela ‘não ficará sozinha’, ecoando a retórica de ataque ao sistema.

O esforço para transformar a investigação em bandeira de perseguição, no entanto, esbarra em uma contradição central. A operação foi aberta a partir de requerimento do Ministério Público e executada por uma polícia sob o comando de um governador que se apresenta como aliado fiel de Jair Bolsonaro.

Esse detalhe torna praticamente impossível para o bolsonarismo construir a imagem de um inimigo externo — adversários políticos, o Judiciário ou a imprensa — como responsáveis pela ação. A ameaça, neste caso, veio de dentro da própria trincheira institucional que o movimento controla em São Paulo.

A tensão expõe as fraturas profundas que atravessam o campo da direita a poucos meses da eleição presidencial de 2026. O discurso de unidade em torno do nome de Flávio Bolsonaro convive com disputas estaduais, vaidades regionais e agendas administrativas que nem sempre se subordinam à estratégia eleitoral nacional.

Tarcísio de Freitas, que desponta como principal fiador da candidatura bolsonarista no maior colégio eleitoral do país, vê sua posição ficar mais delicada. A cobrança de aliados do ex-presidente cria uma pressão dupla: de um lado, precisa manter a institucionalidade e deixar a polícia trabalhar; de outro, não pode se indispor com a militância que o elegeu.

A situação se agrava porque a investigação não é uma iniciativa isolada de um delegado — ela tem lastro no Ministério Público. Isso retira dos bolsonaristas a possibilidade de atribuí-la a perseguição política do governo federal ou de setores da oposição, seu movimento retórico padrão em momentos de crise.

Para piorar, o deputado Mario Frias, que obteve apenas 122.564 votos para deputado federal em 2022 — 0,55% dos votos válidos em São Paulo —, tornou-se um dos principais defensores da produtora e do filme. Sua centralidade no caso demonstra como setores pouco expressivos do bolsonarismo paulista ganham protagonismo em escândalos que respingam no núcleo do poder.

O racha entre bolsonaristas e a gestão Tarcísio tem potencial para se aprofundar conforme a campanha avançar. Cada episódio em que uma instituição controlada por aliados age dentro da lei contra interesses do núcleo duro do bolsonarismo enfraquece o discurso de que há uma conspiração nacional contra o movimento.

O caso Karina Gama, portanto, não é apenas um escândalo de desvio de verbas ou de financiamento irregular de propaganda política. É um sintoma da impossibilidade de a direita brasileira sustentar simultaneamente a condição de governo em alguns estados e a pose de vítima do sistema — uma contradição que se torna mais evidente a cada nova investigação que nasce dentro de casa.

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