O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, tentou afastar-se nesta segunda-feira (1º) da operação policial que atingiu a produtora Go UP Entertainment, responsável pelo documentário ‘Dark Horse’ sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Em chegada apressada a um evento no Rio de Janeiro, o parlamentar afirmou que a ação da Polícia Civil de São Paulo ‘não tem nada a ver’ com o filme, sem oferecer qualquer esclarecimento adicional.
A negativa lacônica, contudo, colide frontalmente com os autos da investigação que apontam ‘consistentes suspeitas’ de desvio de recursos públicos da Prefeitura de São Paulo para a produção da obra cinematográfica. O delegado responsável pelo caso descreveu um intrincado esquema de confusão patrimonial entre o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a produtora, sugerindo possível lavagem de dinheiro para financiar o que seria a maior peça de propaganda bolsonarista já realizada.
No centro da apuração está um contrato de R$ 108 milhões do programa WiFi Livre SP, gerido pelo ICB sob a presidência de Karina Ferreira da Gama, também proprietária da Go UP Entertainment. A operação, autorizada pela Vara de Garantias do Tribunal de Justiça de São Paulo, cumpriu mandados de busca na sede da produtora, na residência de Karina, na Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia e na sede do próprio instituto.
Conforme revelou reportagem do portal O Cafezinho, a teia financeira exposta pela Polícia Civil implode a narrativa de ‘nova política’ que o senador tenta construir para 2026. Enquanto Flávio se apresenta como paladino da probidade administrativa, seus aliados mais próximos são investigados por drenar dinheiro de um programa de conectividade pública para exaltar a figura de um ex-presidente inelegível e condenado.
A ação não partiu de uma iniciativa espontânea do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), tradicional aliado do bolsonarismo, mas de um requerimento formal do Ministério Público que encontrou lastro probatório suficiente para autorização judicial. O escândalo expõe um padrão recorrente de financiamento nebuloso que ronda a mitologia do clã: a promiscuidade entre verba pública, institutos privados e propaganda política pessoal que marcou os anos de poder da família Bolsonaro.
No evento Prisma-RJ, ao lado do presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Douglas Ruas (PL-RJ), pré-candidato ao governo fluminense, Flávio optou por fugir dos jornalistas após o compromisso. Antes disso, discursou sobre os R$ 26 milhões em emendas parlamentares que destinou ao projeto de metrô da Coppe/UFRJ, numa tentativa de contrapor notícias negativas com uma fachada de gestor zeloso que, no entanto, não apaga as perguntas que ficaram sem resposta.
A defesa do senador busca ativamente descolar o nome da família de um escândalo que mistura dinheiro público com propaganda política, argumentando que o filme é um projeto privado sem relação com os fatos investigados. A Polícia Civil, por sua vez, sustenta que os indícios de desvio são robustos o suficiente para justificar a ampliação das diligências, e o caso ainda está em fase inicial de coleta de provas documentais e bancárias.
O documentário ‘Dark Horse’, concebido como um trunfo de campanha para blindar a imagem do ex-presidente e pavimentar o caminho de seu herdeiro político em 2026, transforma-se rapidamente em um símbolo das contradições que marcam a carreira dos filhos de Bolsonaro. A mistura de negócios privados, dinheiro público e propaganda política, longe de ser um acidente, parece constituir o método operacional de um grupo que sempre se vendeu como antissistema.
A conexão entre o escândalo e a campanha presidencial de 2026 é direta e corrosiva. Flávio Bolsonaro tenta se viabilizar como alternativa ao atual governo apresentando-se como um gestor austero e inimigo da corrupção, mas agora tem que explicar por que aliados sob sua órbita política são acusados de desviar verba de Wi-Fi público para glorificar seu pai. A blindagem eleitoral que o documentário deveria proporcionar se transforma em munição para adversários e alimenta um noticiário adverso que o senador não consegue conter com negações lacônicas.
O controle do PL também entra na equação, uma vez que o partido que abriga a família Bolsonaro tenta projetar Flávio como líder nacional enquanto o pai segue inelegível até 2030. Cada nova denúncia de irregularidade financeira envolvendo o clã enfraquece a musculatura do bolsonarismo para negociar alianças com setores do centro democrático que exigem um verniz mínimo de decência administrativa.
O caso ‘Dark Horse’ escancara o abismo entre o discurso moralista e a prática capturada pelo Estado que caracterizou a ascensão e o declínio do bolsonarismo no poder. A Polícia Civil de São Paulo, a partir de um requerimento do Ministério Público, apenas começou a rastrear o destino dos R$ 108 milhões que deveriam conectar os mais pobres à internet e que, segundo a investigação, podem ter financiado a construção de uma mitologia política de uso privado da família Bolsonaro.


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