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Guerra dos EUA e Israel contra o Irã não apagará realidades profundas no Oriente Médio

Em cada grande guerra do Oriente Médio, ressuscita a mesma ilusão perigosa: a crença de que bombas podem reescrever a história. A ofensiva militar conduzida pelos Estados Unidos e por Israel contra a República Islâmica do Irã redesenha o mapa regional com violência inédita, mas há realidades profundas que nenhum artefato bélico, por mais preciso […]

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Mulher caminha em frente a mural com representação de aviões militares no Oriente Médio. (Foto: aljazeera.com)
Mulher caminha em frente a mural com representação de aviões militares no Oriente Médio. (Foto: aljazeera.com)

Em cada grande guerra do Oriente Médio, ressuscita a mesma ilusão perigosa: a crença de que bombas podem reescrever a história. A ofensiva militar conduzida pelos Estados Unidos e por Israel contra a República Islâmica do Irã redesenha o mapa regional com violência inédita, mas há realidades profundas que nenhum artefato bélico, por mais preciso que seja, consegue apagar ou alterar.

Analistas e especialistas analisam como será a região quando os combates cessarem, destacando que esta guerra poderá remodelar o Oriente Médio, alterar eixos regionais e produzir uma nova ordem. Parte disso reflete a história: grandes conflitos sempre deixam fraturas profundas em mapas, sistemas e populações.

No entanto, conforme apontou o portal Al Jazeera em análise recente, existe uma ilusão metodológica que acompanha cada guerra: a fantasia de que ela pode zerar tudo e produzir uma página em branco sobre a qual se escreverá um novo começo da história, mesmo que a própria história desminta repetidamente essa pretensão.

A geografia estratégica sobreviverá intacta ao conflito. O Estreito de Ormuz continuará controlando a passagem de quase um quinto do petróleo mundial, o Canal de Suez permanecerá como artéria vital do comércio internacional e o Crescente Fértil seguirá ligando a Ásia à Europa.

Essa geografia é destino, não escolha, e força militar nenhuma pode modificá-la. A República Islâmica do Irã permanecerá como Estado com vista para Ormuz quando a guerra terminar, o Iêmen seguirá sendo o portão sul de Bab al-Mandeb e o Egito continuará no controle de Suez.

O conflito poderá até mudar quem governa esses pontos, mas não conseguirá transformar o que eles representam geograficamente. Enquanto essa geografia durar, durará também a disputa pelo seu controle.

A causa palestina igualmente não será marginalizada. A maior ilusão exposta por esta guerra é a crença de que destruir o chamado eixo de resistência removeria a questão palestina da agenda regional, numa confusão estrutural entre o instrumento e a essência.

O Irã investiu na causa palestina e a utilizou ideológica e estrategicamente, mas não a criou nem possui a chave para encerrá-la. A questão palestina existia antes do nascimento da República Islâmica e continuará presente independentemente do sucesso, da sobrevivência ou do fracasso do governo iraniano.

Os Acordos de Abraão de 2020 foram construídos sobre a suposição central de que o Irã representava a ameaça existencial comum que unia Israel e os Estados árabes do Golfo num só campo estratégico, e que esse alinhamento de segurança bastaria para contornar e marginalizar a causa palestina. A eclosão da guerra contra o Irã expôs a fragilidade e as limitações dessa equação.

Ao mesmo tempo, a opinião pública árabe, do Atlântico ao Golfo, incluindo as gerações mais jovens que vivem em Estados com paz oficial com Israel, permanece profundamente vinculada à causa palestina de maneiras que transcendem os cálculos oficiais dos governos. Qualquer ordem regional que não enfrente a questão palestina carregará dentro de si as sementes da sua própria instabilidade.

As divisões sectárias igualmente sobreviverão. A guerra dos EUA e de Israel contra o Irã aprofundou tensões confessionais em vários países da região, incluindo Iraque, Líbano e Iêmen, mas essas tensões não começaram com a Revolução Iraniana nem terminarão com uma derrota de Teerã.

O conflito pode enfraquecer a capacidade iraniana de explorar essas divisões e talvez alterar o equilíbrio de poder entre grupos sectários, mas não apagará as próprias identidades confessionais. As comunidades xiitas no Bahrein, Iraque, Líbano e Arábia Saudita possuem suas próprias reivindicações e realidades sociais, independentes de Teerã, e seguirão moldando o cenário político de seus países.

A fragilidade do Estado árabe moderno também não foi criada pela guerra e não será resolvida por ela. Países que sofrem com instituições políticas débeis, sistemas judiciais frágeis, aparatos de segurança inchados que consomem recursos necessários ao desenvolvimento e economias rentistas improdutivas já eram frágeis antes do conflito e continuarão frágeis depois.

Existe inclusive o perigo de que a guerra aprofunde essa fragilidade, distraindo governos árabes com confrontos de segurança e alianças temporárias enquanto adiam as reformas políticas e econômicas que afetam diretamente os cidadãos comuns. Os Estados que investiram no confronto com o Irã em vez de investir em educação e economias competitivas podem se ver diante de uma fatura doméstica imensa quando os combates cessarem.

O abrigo sob o guarda-chuva americano permanecerá precário. Mesmo antes da invasão do Iraque em 2003, a confiança no modelo dos EUA na região já começara a se desgastar, e a rua árabe, inclusive nos países aliados de Washington, enxerga a política americana com uma mistura de ressentimento e desprezo.

A guerra contra o Irã pode restaurar alguma dose de prestígio dos EUA aos olhos de governos que temiam a influência iraniana, mas não restaurará a confiança popular ampla na visão americana para o Oriente Médio. Domínio militar, por si só, já não basta para construir legitimidade política ou confiança, como os Estados Unidos aprenderam no Afeganistão e no Iraque, e poderão ser forçados a aprender novamente no Irã.

O Islã político sobreviverá além do eixo iraniano. A guerra desferiu um golpe severo na corrente do Islã político alinhada a Teerã e contribuiu para fragmentar a estrutura ideológica do chamado eixo de resistência, mas os movimentos islamistas da região são muito mais diversos e complexos do que apenas o Irã.

A Irmandade Muçulmana, os movimentos salafistas ativistas e diversas correntes islâmicas nacionalistas emergem de contextos sociais locais e de reivindicações políticas que nada têm a ver com Teerã. O Islã representa, para milhões de pessoas na região, uma fonte de identidade e um marco para compreender justiça, política e resistência, referência que não se evaporará com a destruição de uma instalação nuclear ou com o assassinato de um líder.

Se há uma lição que a história ensina persistentemente nesta parte do mundo, é justamente esta: grandes guerras podem mudar governos, aparências e equilíbrios de poder, mas raramente tocam a essência subjacente. O que permanece depois da fumaça e dos escombros são exatamente as forças profundas que os estrategistas ocidentais insistem em ignorar em cada novo conflito.

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Comentários

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Rick Ancap

04/06/2026 - 06h07

Bomba apaga realidade sim, o nome disso é destruição criativa.

    Clarice Historiadora

    04/06/2026 - 06h10

    Rick, destruição criativa é um conceito econômico pensado pra inovação industrial, não pra redução de cidades a escombros. Pegar Schumpeter e aplicar ao bombardeio de civis é o tipo de malaise teórica que a gente chama de imperialismo com verniz de objetividade na pós-graduação — sugiro a leitura de “Dialética do Estilhaço”, da Adorno & Leavy, 2018, que desmonta essa associação.

Luan Silva

04/06/2026 - 05h59

Bomba não apaga realidade? Fala isso pro Hamas. Faz o L nunca mais.

    Letícia Fernandes

    04/06/2026 - 06h03

    Luan, seu comentário é sintomático de um pensamento que confunde tática com totalidade. Quando digo que bombas não apagam realidades, não estou fazendo apologia ao Hamas nem defendendo qualquer facção — estou apontando um fato estrutural que a psicanálise materialista já identificava em Freud e que Marx percebeu antes: a violência nunca elimina as contradições, ela as desloca para outro plano. As bombas de Israel e dos EUA podem arrasar edifícios e corpos, mas a cada tonelada de explosivo lançada sobre Gaza, a resistência não some — ela se reconfigura, se radicaliza e, principalmente, se reproduz nas condições materiais que produzem o desespero. Você acha que o Hamas existe porque alguém acordou um dia e decidiu criar um movimento armado por diversão? Ele é filho direto da ocupação ilegal, do bloqueio desumano e do apartheid que o sionismo israelense sustenta com apoio dos mesmos que hoje bombardeiam o Irã.

    A sua piada com “Faz o L nunca mais” revela um reducionismo infantil diante da complexidade do Oriente Médio. O Brasil não decide geopolítica global pelo discurso de um presidente, e achar que Lula ou Bolsonaro teriam qualquer influência nesse conflito é superestimar o poder do subimperialismo brasileiro. Enquanto você repete slogans de militância barsileira, crianças palestinas estão sendo despedaçadas com bombas fabricadas nos EUA e financiadas com nossos impostos. A direita adora tratar o Hamas como epifenômeno maligno, como se fosse possível extirpar um movimento de resistência sem extirpar as condições que o gestam — e isso exige enfrentar a superestrutura ideológica sionista, a cumplicidade das potências ocidentais e o capitalismo que lucra com a guerra. Mas claro, é mais cômodo reduziro a “fala isso pro Hamas” e soltar um gracejo partidário que não muda em nada a vida dos palestinos sob bombardeio.


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