Cientistas da Universidade de Jena, na Alemanha, revelaram a existência de fósseis ocultos na coleção pessoal de âmbar do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe. A descoberta inclui uma formiga extinta com detalhes anatômicos jamais documentados. O acervo, composto por 40 fragmentos de âmbar báltico e mantido pelo Museu Nacional Goethe em Weimar, revelou três insetos fossilizados: um mosquito fungo, uma mosca preta e uma formiga da espécie já extinta Ctenobethylus goepperti.
As peças brutas permaneceram intocadas por séculos, com os organismos praticamente invisíveis até o escaneamento com microtomografia computadorizada por sincrotron, realizado no acelerador de partículas DESY, em Hamburgo. A formiga foi o achado de maior destaque entre os três insetos descobertos, por seu estado de conservação excepcional.
Segundo Bernhard Bock, pesquisador do Museu Filetico da Universidade de Jena, a qualidade da preservação permitiu uma descrição mais detalhada do que qualquer estudo anterior havia conseguido sobre a espécie. Os feixes de raios-X de alta energia revelaram pelos finíssimos no corpo da formiga operária e permitiram visualizar estruturas esqueléticas internas na cabeça e no tórax.
Esses detalhes nunca haviam sido observados antes e fornecem informações valiosas sobre a anatomia e a evolução desse grupo de formigas, que habitou as florestas europeias há cerca de 40 milhões de anos. O pesquisador Daniel Tröger, também da Universidade de Jena, produziu uma reconstrução digital completa do fóssil e a disponibilizou online para a comunidade científica.
O modelo tridimensional permite que paleontólogos do mundo inteiro comparem novos achados com a referência digital, acelerando a identificação de futuros fósseis da mesma espécie. As comparações com o gênero moderno Liometopum, presente hoje na América do Norte e em regiões mais quentes da Europa, oferecem pistas sobre o comportamento da formiga extinta.
Tudo indica que esses insetos construíam grandes ninhos em árvores, o que ajuda a explicar por que são encontrados com tanta frequência no âmbar báltico: ao subir pelos troncos resinados, ficavam presos na resina que depois fossilizou.
Goethe, embora tenha sido proprietário das peças, demonstrou pouco interesse científico pelo âmbar em si, concentrando-se apenas em suas propriedades ópticas. Ele chegou a lentes polidas a partir da resina fossilizada para estudar efeitos cromáticos, em consonância com seu trabalho sobre a teoria das cores, mas jamais suspeitou que tesouros paleontológicos estivessem escondidos dentro de sua própria coleção.
Segundo reportagem do portal ScienceDaily, a biblioteca pessoal do escritor já continha publicações científicas precursoras sobre fósseis em âmbar, sinal de que o tema começava a despertar a curiosidade acadêmica da época.
No entanto, a relevância plena desses organismos preservados só seria compreendida muito depois, com o avanço das técnicas de análise do século XXI. Bernhard Bock destacou que Goethe é considerado o fundador da morfologia e provavelmente ficaria entusiasmado ao ver como métodos inteiramente novos extraíram conhecimento valioso de objetos que ele tocou há mais de dois séculos.
A pesquisa demonstra que coleções históricas, mesmo quando modestas na aparência, continuam produzindo descobertas científicas de ponta quando iluminadas pelas ferramentas certas. O trabalho de escaneamento e modelagem 3D abre caminho para que outras peças de âmbar mantidas em museus ao redor do mundo sejam investigadas com o mesmo grau de detalhe.
A paleontologia ganha uma janela de altíssima resolução para dentro das florestas antigas, capturando instantâneos de ecossistemas que desapareceram dezenas de milhões de anos antes do surgimento da humanidade.


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