A auditoria interna da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) concluiu que o Banco Master não atendia aos critérios para receber um aporte de R$ 200 milhões em 2023. O presidente da estatal, Rafael Rolim, encaminhou o documento à diretoria recomendando o envio imediato ao Tribunal de Contas do Estado (TCE) e ao Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ).
A investigação foi motivada pelo prejuízo superior a R$ 222 milhões sofrido pela companhia com a operação. A auditoria examinou documentos desde julho de 2023, quando a diretoria financeira recebeu as demonstrações contábeis do banco e um relatório de rating da agência Fitch, nota ‘BBB-‘, emitido em novembro de 2021.
Na época, a política de investimentos da Cedae, aprovada em março de 2023, exigia classificação mínima ‘A-‘ e avaliações de ao menos duas agências independentes. O próprio material fornecido pelo Banco Master comprovava de imediato sua inelegibilidade.
O procedimento padrão de governança, registra o relatório, exigiria a desqualificação imediata da instituição. Em vez de barrar o negócio, contudo, a diretoria financeira iniciou um processo para modificar as regras internas.
Em agosto de 2023, foi aberto o procedimento de revisão da política de investimentos. A nova versão foi aprovada já em setembro, com redução das exigências sobre agências de rating e a criação de uma faixa de risco que passou a aceitar classificações entre ‘BBB+’ e ‘BBB-‘, exatamente o perfil do Banco Master.
O relatório destaca que apenas dois meses antes os mesmos documentos atestavam a inelegibilidade do banco. A cronologia reforça a impressão de que as regras foram adaptadas sob medida para viabilizar a aplicação.
Outro achado explosivo envolve a cronologia oficial informada à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Registros do sistema de catracas da sede da Cedae revelam uma reunião em 17 de maio de 2023 entre representantes do Master e a diretoria financeira.
Esse encontro ocorreu mais de um mês antes do primeiro contato formal que havia sido comunicado à CVM. A divergência indica que as negociações começaram de forma sigilosa e muito antes da tramitação oficial.
O escândalo atinge em cheio o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro. O parlamentar é um cliente de alto perfil do Banco Master, que lhe concedeu empréstimo milionário para a compra de uma mansão em Brasília.
A operação de crédito, revelada em 2022, já levantava suspeitas sobre condições excepcionais e origem dos recursos. Agora, a descoberta de que a Cedae alterou suas normas para investir no mesmo banco fortalece a tese de favorecimento recíproco.
O prejuízo imposto à estatal de água e esgoto, que presta serviços essenciais, torna a situação ainda mais grave. A auditoria demonstra que a diretoria financeira agiu em descompasso com os princípios de governança corporativa.
O Banco Master não é uma instituição qualquer: ele figura em diversas controvérsias, incluindo rebaixamentos de rating e operações de alto risco. Sua proximidade com o clã Bolsonaro chama atenção de investigadores.
Flávio Bolsonaro, um dos principais articuladores do Partido Liberal (PL) no Senado, é peça central na engrenagem da campanha presidencial de 2026. A blindagem eleitoral que o grupo tenta construir depende de manter a imagem de honestidade do ex-presidente.
Caso o TCE e o MPRJ confirmem as irregularidades, o impacto reputacional pode ser devastador. A narrativa de combate à corrupção, crucial para o bolsonarismo, sofreria um abalo de grandes proporções.
Já há um histórico de investigações que envolvem o senador, como o caso das rachadinhas e o inquérito dos atos antidemocráticos. Agora, a trama da Cedae soma mais um elemento ao rosário de suspeitas.
O relatório da auditoria é minucioso: os auditores constataram que a documentação enviada pelo Master era suficiente para vetar o investimento. A diretoria financeira, contudo, optou por ignorar as exigências e depois modificá-las.
Essa manobra atípica expõe a promiscuidade entre interesses privados e a gestão de estatais. Não se trata de um erro administrativo, mas de uma operação planejada para burlar os controles internos.
A responsabilidade política vai além do banco: o governador do Rio de Janeiro à época, Cláudio Castro (PL), também pode ser cobrado, conforme apontou o jornal GGN. A Cedae é uma empresa estadual, e o episódio sugere conivência ou negligência da cúpula do governo.
O Banco Master, por sua vez, tenta minimizar a crise afirmando que o investimento seguiu todas as regras vigentes na data da aprovação final, omitindo que as regras haviam sido alteradas poucas semanas antes. Notas divulgadas pela assessoria buscam descolar a operação da imagem do senador.
A defesa de Flávio Bolsonaro sustenta que o empréstimo pessoal é uma operação lícita e que não há relação com a Cedae. Contudo, a coincidência temporal e a natureza do ajuste regulatório são difíceis de dissociar.
A menos de um ano do pleito de 2026, o estrago político pode ser imenso. O discurso de ‘nova política’ e anticorrupção, bandeira central do bolsonarismo, fica seriamente comprometido.
O ex-presidente Jair Bolsonaro, que planeja disputar a Presidência, terá de lidar com o desgaste do filho. A oposição certamente explorará o caso como prova de que o clã pratica exatamente o que condenava.
As investigações podem avançar para apurar se houve tráfico de influência ou mesmo lavagem de dinheiro. A Polícia Federal já acompanha de perto as movimentações do Banco Master.
Enquanto isso, os cofres públicos do Rio de Janeiro arcam com um rombo de mais de R$ 222 milhões. O dinheiro faz falta em investimentos em saneamento, setor historicamente carente no estado.
A blindagem eleitoral de 2026, que dependia da rejeição do clã a escândalos de corrupção, está sendo corroída por dentro. O caso Cedae mostra que o bolsonarismo não só flerta com o fisiologismo como o pratica ostensivamente.
A sociedade fluminense e os órgãos de controle precisam exigir responsabilização. O sigilo das tratativas e a alteração casada das normas indicam um modus operandi que merece punição exemplar.
O senador Flávio Bolsonaro, embora negue, está no centro de um vendaval que coloca em xeque sua própria permanência no cargo. O futuro político do clã pode ser definido nos tribunais antes mesmo das urnas.
Leia também: Toda a cobertura dos escândalos da família Bolsonaro.
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