Um único metal raro, presente em quantidades mínimas nos potentes ímãs de veículos elétricos e turbinas eólicas, responde por até 78% do impacto ambiental desses componentes essenciais à transição energética. A descoberta, feita por cientistas da Universidade de Leiden e publicada no periódico Sustainable Production and Consumption, expõe o custo oculto do disprósio, elemento que representa apenas de 1% a 8% da composição do ímã, mas domina a pegada ecológica e financeira do produto final.
O disprósio é adicionado aos ímãs de neodímio-ferro-boro para impedir que percam potência sob altas temperaturas, como as geradas por motores elétricos em funcionamento prolongado. Os pesquisadores Stellina Samuel, Robert Istrate e René Kleijn analisaram o ciclo de vida completo desses ímãs — da mineração ao produto acabado — e constataram que, para a composição padrão de 4% de disprósio, o elemento foi responsável por até 44% do custo da matéria-prima.
A maior parte do impacto ambiental ocorre na extração e no processamento do metal, que utiliza um método conhecido como lixiviação in-situ. Empresas mineradoras perfuram montanhas e injetam produtos químicos para dissolver os metais raros, recolhendo a solução na base da formação rochosa. Imagens de satélite revelam a devastação da paisagem em larga escala, e parte dos químicos utilizados pode vazar para o ambiente ao redor.
Após a extração, o disprósio passa por um processo de separação extremamente complexo, pois pertence ao grupo de terras raras pesadas e é difícil de isolar de elementos similares. Os cientistas explicam que são necessários volumes enormes de químicos e energia para separar esses metais individualmente, o que eleva ainda mais a conta ambiental total. Cada etapa da purificação adiciona camadas de impacto que raramente entram no cálculo dos benefícios da energia limpa.
Embora o disprósio represente uma fração mínima do ímã, sua influência desproporcional mostra onde a indústria pode atuar para reduzir danos, segundo apontou o portal Phys.org ao divulgar a pesquisa. A mineração do metal está concentrada principalmente em Mianmar e no sul da China, regiões onde a Europa tem pouca capacidade de interferir nas práticas extrativas. A saída apontada pelos autores é buscar eficiência no uso do material, com novas tecnologias e designs que exijam menos disprósio sem comprometer o desempenho magnético.
O pesquisador René Kleijn compara os materiais críticos a temperos em uma refeição: é necessária apenas uma pequena quantidade, mas a influência sobre o resultado final é imensa. Mesmo reduções modestas no uso de disprósio poderiam gerar ganhos significativos, tanto ambientais quanto de custo. A indústria já está atenta a essa vulnerabilidade, tentando diminuir a dependência de matérias-primas críticas que sofrem com riscos geopolíticos, como as restrições chinesas à exportação de terras raras.
Samuel destaca que a origem do metal é frequentemente difícil de rastrear, tornando as cadeias de suprimentos mais difíceis de monitorar e mais expostas a rupturas. Em pesquisas futuras, a equipe pretende examinar também as consequências sociais da extração desses materiais, um aspecto que até agora recebeu muito menos atenção. Os efeitos locais são pouco documentados e costumam permanecer invisíveis para os consumidores e legisladores europeus.
O estudo levanta questões incômodas sobre a responsabilidade ao longo da cadeia de fornecimento, especialmente porque a maior parte da extração e do processamento ocorre fora da Europa, longe dos olhos do público ocidental. Às vezes, a maior pegada ambiental está escondida em um ingrediente quase invisível.


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