Legisladores dos Estados Unidos avançam proposta que pode aprofundar os laços militares entre Washington e Tel Aviv em escala inédita. A medida está embutida como Seção 224 do Ato de Autorização de Defesa Nacional de 2027.
A chamada United States-Israel Defence Technology Cooperation Initiative exigirá que o secretário de Defesa designe um oficial para coordenar a cooperação bilateral. As áreas prioritárias incluem inteligência artificial, sistemas autônomos, defesa cibernética, tecnologias de mísseis e contramedidas contra drones, além de cooperação biotecnológica e fusão de dados.
Analistas avaliam que a proposta vai além da ajuda militar tradicional. A integração prevista criaria um vínculo institucional entre as indústrias de defesa dos dois países, transformando o apoio a Israel em característica estrutural da segurança americana.
A iniciativa reduziria a fiscalização política, pois os programas conjuntos de desenvolvimento tecnológico se tornariam difíceis de desfazer. Mark Hilborne, professor do King’s College London, afirmou que a medida aponta para uma integração mais estreita, com ciclos longos de desenvolvimento que se entrincheiram independentemente de mudanças na Casa Branca.
A proposta surge em meio a divisões no apoio público americano a Israel. A guerra em Gaza, que já matou centenas de palestinos desde o último cessar-fogo, e a ofensiva israelense no sul do Líbano, com milhares de mortos, ampliaram o ceticismo entre os cidadãos dos EUA.
Pesquisa do The New York Times revelou que apenas 30% dos entrevistados apoiam os ataques militares ordenados por Donald Trump contra o Irã. Outro levantamento do Institute for Global Affairs mostrou que somente 16% dos americanos defendem a continuidade das transferências de armas para Israel sem restrições.
A oposição não se limita à esquerda democrata. A deputada republicana Marjorie Taylor Greene criticou a medida como captura do governo americano por um governo estrangeiro. O deputado Thomas Massie prometeu apresentar emenda para remover a cláusula do NDAA.
Críticos advertem que a integração teria consequências diretas para os palestinos. Hilborne destacou que sistemas de vigilância, veículos autônomos e tecnologias de inteligência artificial desenvolvidos em conjunto aumentariam as capacidades das forças israelenses em Gaza e na Cisjordânia.
A medida também reduziria a influência de Washington sobre Tel Aviv. Ao tornarem-se dependentes de Israel para componentes e desenvolvimento de defesa, os EUA perderiam a capacidade de condicionar o fornecimento de armas ou exercer pressão política significativa.
Imad Salamey, professor da Universidade Libanesa Americana, vê a integração como a próxima fase dos Acordos de Abraão. Ela transformaria Israel no polo militar e tecnológico dominante de um regime de segurança regional apoiado pelos EUA, pressionando o Líbano e Gaza a aceitar arranjos liderados por Tel Aviv.
Embora o destino da Seção 224 ainda seja incerto, sua inclusão no NDAA demonstra como legisladores apoiados pelo lobby pró-Israel tentam amarrar as estruturas militares dos dois países. Os vínculos industriais de longo prazo criados seriam extremamente difíceis de reverter por futuras administrações.
Leia mais sobre o assunto na aljazeera.com.
Leia também: Congresso dos EUA avança plano para fusão das indústrias militares com Israel
? Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho
Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.


Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!