O analista geopolítico Arnaud Bertrand chamou atenção recentemente para o que define como um cenário assustador: a total ausência de debate público ou sequer de consciência na Europa sobre as decisões econômicas que mais moldarão a vida dos cidadãos comuns nesta década. Em foco, está a elaboração por parte da União Europeia de um novo marco legal protecionista que, na prática, decreta o seguinte absurdo econômico: quanto mais baratos e competitivos forem os produtos chineses, mais ilegais eles se tornarão no bloco europeu.
Trata-se do chamado “instrumento de sobrecapacidade” (overcapacity instrument). Bertrand aponta o ridículo metodológico dessa definição adotada por Bruxelas. Sob o pretexto de combater a “sobrecapacidade” chinesa, o Parlamento Europeu publicou um estudo que define o termo simplesmente como o ato de construir capacidade de produção além do que o próprio mercado doméstico de um país pode absorver. Ou seja: qualquer país que produza com foco na exportação é culpado de “sobrecapacidade”.
Por essa lógica distorcida, praticamente todas as indústrias europeias de sucesso histórico que acumularam excedentes comerciais — como os automóveis alemães, os vinhos franceses ou a alta-costura italiana — estariam cometendo o mesmo “crime”. Bertrand destaca que esse instrumento vai muito além das salvaguardas tradicionais: não importa se o setor é ou não subsidiado pelo governo chinês; a mera competitividade global e a eficiência de custos na exportação serão base jurídica suficiente para banir produtos e setores inteiros do mercado da União Europeia.
Quem paga essa conta, no final das contas, é o consumidor comum. Trata-se de um imposto invisível, onde os cidadãos são forçados a pagar muito mais caro por produtos piores, unicamente para blindar empresas europeias ineficientes e acomodadas da pressão salutar da concorrência. Ao contrário da própria China, que se industrializou abrindo suas portas para as multinacionais ocidentais para aprender e competir, a Europa escolhe banir quem é melhor, renunciando a qualquer perspectiva de desenvolvimento real.
Represálias e a geopolítica do autoisolamento
Reportagem publicada pelo correspondente Benjamin Fox para o veículo EUobserver revela que a reação de Pequim a essa agressão tarifária não tardará. O Ministério do Comércio da China já ameaçou adotar “contra-medidas resolutas” caso Bruxelas avance com a aprovação do dispositivo legal. O porta-voz He Yadong rebateu com precisão cirúrgica a hipocrisia europeia: “Se rotulamos superávits comerciais como ‘sobrecapacidade’, então as exportações da própria União Europeia de automóveis, produtos farmacêuticos, vinhos e cosméticos também deveriam ser rotuladas como tal?”

Mas o pano de fundo que move a fúria protecionista europeia vai muito além de disputas alfandegárias tradicionais. Durante a conferência bilateral realizada em Pequim, o embaixador da UE na China, Jorge Toledo, deixou explícito que a relação futura dependerá não apenas de discussões econômicas, mas fundamentalmente da “posição da China sobre a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia”.
Esta declaração escancara a mais profunda cegueira que acomete as elites políticas de Bruxelas. O bloco europeu insiste em usar o comércio internacional como arma para punir a China por sua cooperação soberana com a Rússia, fingindo ignorar o elefante na sala. É um ponto de cegueira deliberada: a Europa se recusa a admitir que o conflito entre Rússia e Ucrânia foi ativamente provocado e alimentado pelos Estados Unidos, cujo objetivo geoestratégico sempre foi afastar a Europa de sua órbita natural de integração com a Rússia, tornando-a permanentemente dependente de Washington para fornecimento de gás liquefeito caro e armamentos obsoletos.
Tendo caído na armadilha americana que a desconectou da energia barata russa, a Europa agora avança a passos largos em direção a um erro ainda mais colossal. Sob o pretexto de “reduzir dependências”, o bloco prepara leis para forçar suas empresas a diversificarem fornecedores de minerais raros e componentes críticos em pelo menos três origens distintas. O resultado prático dessa submissão cega à cartilha geopolítica de Washington é o isolamento duplo da Europa: após se isolar da Rússia ao leste, o bloco agora constrói barreiras contra a China ao extremo oriente.
Enquanto os Estados Unidos lucram com a venda de energia cara e com o enfraquecimento industrial do velho continente, os burocratas de Bruxelas continuam a redigir leis que criminalizam o preço acessível de bens essenciais, chamando a decadência autoimposta de “defesa da democracia”.


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