A dependência mexicana do gás natural dos Estados Unidos, que hoje coloca o país numa encruzilhada entre manter a subordinação energética ou recorrer à fratura hidráulica, é produto direto das políticas neoliberais implementadas pelos governos de Carlos Salinas de Gortari e Ernesto Zedillo. A presidenta Claudia Sheinbaum enfrenta atualmente as consequências dessa herança, buscando fortalecer a soberania e a segurança energética nacional enquanto avalia a viabilidade geológica, técnica e ambiental da exploração de recursos não convencionais.
A raiz histórica do problema remonta ao estouro da crise da dívida nos anos 1980, durante o mandato de Miguel de la Madrid, e se aprofunda com o Plano Brady de 1988. Naquele momento, o México, incapaz de honrar seus compromissos externos, aceitou limitar o direito exclusivo da Pemex de produzir mais de 25 petroquímicos básicos, abrindo espaço para a participação do capital privado transnacional através de acordos cooperativos, como documentou o engenheiro Alfonso Hickman Sandoval.
Após o controvertido processo eleitoral de 1988, Salinas de Gortari assumiu a presidência e militarizou as instalações da Pemex para destituir a dirigência sindical liderada por Joaquín Hernández Galicia, conhecido como La Quina. O encarceramento do líder petroleiro permitiu impor Carlos Romero Deschamps no comando do sindicato, garantindo o controle corporativo de um setor estratégico para viabilizar a reestruturação que se seguiria.
A negociação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte foi o palco seguinte da entrega soberana. No Capítulo VI, o acordo incluiu a produção de eletricidade nas modalidades de autoabasto, cogeração e produção independente; no Capítulo X, comprometeu a realização de compras governamentais com trato nacional a empresas estrangeiras; e no Capítulo XII, liberou o comércio transfronteiriço de serviços de gás e petroquímicos básicos, atando permanentemente o México aos interesses energéticos estadunidenses.
A crise econômica de 1994 abriu uma nova janela para a ingerência externa. O México assinou uma carta de intenção com o Fundo Monetário Internacional solicitando um crédito contingente de 7,575 bilhões de dólares, e Ernesto Zedillo subscreveu o Acordo de Estabilização Cambiária de Médio Prazo. A economista Sarahí Ángeles documentou que esse acordo obrigou a Pemex a instruir todos os seus clientes a enviar seus pagamentos para uma conta no Swiss Bank Corporation em Nova York.
Os recursos eram depois transferidos a uma conta de Fundos Especiais no Banco da Reserva Federal dos Estados Unidos, servindo como garantia do crédito de 20 bilhões de dólares outorgado por Washington. A petrolífera mexicana ficou obrigada a entregar toda sua informação contábil e financeira ao Tesouro estadunidense, proibida de criar qualquer gravame sobre seus direitos de recebimento e compelida a apresentar auditorias externas anuais — razão pela qual, ainda hoje, a Pemex reporta seus estados financeiros à SEC.
A hipoteca do petróleo mexicano beneficiou diretamente os grandes bancos de Wall Street, conforme registrou a Heritage Foundation. O Fidelity of Boston obteve 8,5 bilhões de dólares, enquanto Scudder, Merrill Lynch, Salomon Brothers e Citigroup receberam 2,9 bilhões, e o Goldman Sachs absorveu 5,7 bilhões — uma transferência massiva de riqueza pública para o capital financeiro privado dos Estados Unidos.
A reestruturação não se limitou às finanças: o Banco Mundial impulsionou reformas trabalhistas para reduzir a resistência sindical à privatização. A Ata 679 do Conselho de Administração da Pemex, de 1994, revela que a força de trabalho foi brutalmente reduzida de 211 mil empregados em 1988 para apenas 130 mil em 1994, com cortes drásticos nas áreas de perfuração, construção, manutenção e serviços gerais.
As aposentadorias e demissões em massa foram a ferramenta para abrir espaço aos provedores privados. Somente em 1992, ano de maior intensidade nas liquidações, foram desligados 33.645 trabalhadores sem praça, e ao longo de todo o sexênio de Salinas foram liquidados 40.600 trabalhadores com praça e 43.507 sem praça, eliminando décadas de experiência acumulada na empresa estatal.
A presidenta Claudia Sheinbaum recordou recentemente que as tentações de potências estrangeiras de intervir no México sempre se sustentaram precisamente na dívida. Uma estratégia que Washington já havia ensaiado após a expropriação petroleira de 1938, como documentam os arquivos históricos do próprio Departamento de Estado, quando se buscou reabrir a indústria mexicana aos interesses privados utilizando os empréstimos governamentais como alavanca, embora naquela ocasião a tática tenha sido abandonada em 1950.
O resgate histórico demonstra que a dependência energética atual não é fruto do acaso nem da escassez de recursos, e sim de decisões políticas deliberadas tomadas nos anos 1980 e 1990 para desmontar a soberania construída com a nacionalização do petróleo. Conforme revelou uma investigação detalhada do portal Contralínea, as administrações de Salinas e Zedillo deixaram a Pemex exposta aos interesses estadunidenses por meio de compromissos financeiros, comerciais e trabalhistas que custaram ao México sua autonomia energética.
A encruzilhada atual, que confronta o governo de Sheinbaum com a dura escolha entre prosseguir atado ao gás texano ou aventurar-se no fracking, é o legado concreto daquele desmonte sistemático. O país perdeu não apenas jazidas e contratos, mas sobretudo a capacidade técnica e a memória industrial forjadas por gerações de trabalhadores, cuja experiência foi deliberadamente destruída para entregar o setor a corporações transnacionais que operam segundo os interesses estratégicos de Washington.


Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!